Título: BC larga o câmbio e dólar desaba
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 18/03/2005, Brasil, p. A2

O mercado de câmbio preenchia ontem todas as condições favoráveis a um novo leilão de compra de dólar pelo Banco Central. Forte fluxo de capitais derrubava a taxa e não era dia de formação de " ptax " para liquidação financeira de dívida cambial. Mesmo assim o BC se ausentou do mercado e permitiu que o dólar fechasse em queda de 1,52%, a maior do ano, cotado a R$ 2,7210. Os motivos da baixa foram o recuo dos juros americanos de 10 anos, de 4,51% para 4,45%, restaurando a possibilidade de sobrevida à farra da liquidez internacional, o reforço conferido na véspera pelo Copom à atratividade dos juros domésticos, a perspectiva de novas captações externas e a defesa feita ontem pelo secretário do Tesouro, Joaquim Levy, de um superávit primário maior. Depois de comprar quase US$ 12 bilhões no mercado à vista desde que, no dia 6 de dezembro de 2004, reinaugurou a política de recomposição das reservas internacionais, o BC só olhou o dólar cair. Trata-se de decisão coerente com a tomada na terça-feira de interromper suas compras de dólares no mercado futuro. Em seis leilões de swaps reversos, ele enxugou do sistema US$ 8,7 bilhões. No total, entre intervenções à vista e no futuro, secou da economia o equivalente a US$ 20,7 bilhões em menos de quatro meses. Ontem o BC enviou um claríssimo sinal aos bancos: precisa que o dólar fraqueje de forma a ajudá-lo na luta contra a inflação. Caso contrário, terá de eternizar o aperto monetário para conseguir cumprir a meta de 5,1%. O BC está dizendo aos especuladores internacionais: podem vir que eu vou continuar subindo o juro e não vou mais comprar dólar, pelo menos não com o mesmo apetite. A área econômica do Banco CSFB rodou o modelo matemático utilizado pelo Banco Central e concluiu que, com taxa de câmbio a R$ 2,75, será difícil cumprir a meta de inflação ajustada para 2005, de 5,1%, sem novas elevações de juros. O diretor de Política Monetária do BC, Rodrigo Azevedo, sabe disso pois foi ele quem montou o modelo quando trabalhava no CSFB. Pelas planilhas, a Selic terá de subir mais dois pontos, para 21,25%, se o BC quiser mesmo cumprir a meta. Isso na hipótese de as outras variáveis mantiverem um bom comportamento. Ou seja, o dólar não pode subir além de R$ 2,75. As expectativas de inflação do Focus não podem superar os 5,7%. Mas o próprio CSFB reconhece que dificilmente o BC elevaria os juros na magnitude indicada pelo modelo. Chocado com a decisão do Copom de elevar a Selic em 0,50 ponto e sinalizar que o aperto ainda não terminou, o mercado futuro de juros não tem tanta certeza disso. Os bancos estavam preparados para uma alta de 0,50 ponto, repetição do percentual aplicado ao juro desde outubro, mas esperavam um comunicado pós-Copom mais flexível, indicando a interrupção da série de sete aumentos. Não veio. A perspectiva de que a taxa básica continuará subindo provocou enorme rebuliço no DI futuro. O movimento, superior a R$ 100 bilhões, foi recorde histórico absoluto. E as projeções de CDI dispararam. A agitação obrigou o Tesouro Nacional a cancelar os leilões de títulos públicos (LTN e NTN-F) programados para ontem. Alegou, para tanto, " excesso de volatilidade " . Na prática, se insistisse na venda, de duas, uma: ou venderia por juro extravagantemente elevado ou recusaria as propostas, malogrando o leilão. Os indícios de que o BC prolongará o arrocho monetário provocaram forte inclinação positiva da curva futura de juros. O CDI previsto para a virada de abril para maio, até quarta-feira calibrado para suportar um congelamento da Selic em 19,25%, avançou ontem de 19,06% para 19,24%. As tesourarias já acreditam que o Copom irá subir a taxa para 19,75% em sua reunião do dia 20 de abril. O CDI futuro só pára de subir em outubro, cujo contrato deslocou-se ontem de 19,07% para 19,47%.