Título: IGP-10 acelera alta e fecha março em 0,67%
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 18/03/2005, Brasil, p. A5
A inflação medida pelo índice geral de preços-10 (IGP-10) ficou em 0,67% em março, acima do 0,31% de fevereiro e do 0,55% projetado pelos analistas, uma alta puxada principalmente pelo aumento de 2,67% dos preços agrícolas no atacado. Com isso, o índice de preços no atacado (IPA), que responde por 60% do IGP-10, registrou variação de 0,7%, bem mais que os 0,17% de fevereiro. Os produtos industriais no atacado ficaram bem comportados, com alta de apenas 0,03%, devido principalmente ao impacto do câmbio. Os analistas acreditam, no entanto, que os produtos industriais terão comportamento diverso daqui para a frente, devido à alta das commodities metálicas.
O coordenador de análises econômicas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros, ressaltou a alta dos produtos agrícolas no atacado, que em fevereiro haviam caído 0,21%. O destaque negativo ficou com os alimentos in natura, que subiram 19,71% no IGP-10 de março, bem acima dos 0,12% de fevereiro. Os ovos foram os grandes vilões, com alta de 33,88%. Com o forte calor em boa parte do país, as galinhas têm colocado menos ovos. Quadros, porém, não se mostra preocupado com a alta dos produtos agrícolas, atribuindo a esse movimento um caráter sazonal, restrito a alguns produtos. O leite in natura, por exemplo subiu 1,31% em março, enquanto a manga disparou 64,19%. Para Quadros, é um choque de oferta, que não deriva de um processo de transmissão de alta dos preços ao longo da cadeia produtiva. O economista Fernando Fenolio, da Rosenberg & Associados, também vê um choque de oferta em curso, mas diz que a alta das commodities agrícolas já começa a ter alguma influência, como mostra o grupo lavouras para exportações. Depois de subir 2,04% em fevereiro, o segmento teve variação de 3,14% em março. Desde 9 de fevereiro, o índice de commodities agrícolas da Rosenberg já teve alta de 18% em dólar. Os analistas do Bradesco também consideram a alta dos preços agrícolas um movimento basicamente sazonal, mas se mostram preocupados com os impactos da estiagem no Sul do país, "que tem gerado quebras de safras nada irrelevantes em cereais e grãos, que representam cerca de 10% do IPA". Se os produtos agrícolas no atacado ficaram pressionados, ocorreu o oposto com o IPA industrial. Para Fenolio, o câmbio valorizado contribuiu para que esses preços ficassem quase estáveis, com alta de apenas 0,03%, abaixo do 0,3% de fevereiro. Nas próximas prévias, porém, esse cenário não deve se repetir. Como lembram os analistas do Bradesco, há vários fatores que podem pressionar o IPA industrial nos próximos meses, como "a recente aceleração dos preços do petróleo, das commodities metálicas e da alta dos preços dos cereais e grãos no mercado doméstico, que influenciará os produtos alimentares industrializados no atacado". Eles ressaltam que a alta do minério de ferro e do carvão mineral começarão a causar impacto em abril e maio. "Praticamente todas as categorias de commodities estão em alta, a saber, as de energia, as agrícolas e as metálicas", afirmam eles, concluindo que o período de IGPs bem comportado chegou ao fim, pelo menos para os próximos três meses. O índice de preços ao consumidor (IPC), com peso de 30% no IGP-10, subiu 0,57%, abaixo dos 0,66% do mês passado. O grupo transporte foi um dos que mais pressionaram, com alta de 1,03%, ante queda de 0,01% em fevereiro. Já o segmento educação, leitura e recreação contribuiu para a desaceleração do IPC, ao registrar variação de 0,35%, bem abaixo do 2,42% do mês anterior. O efeito do reajuste de mensalidades escolares acabou. O índice nacional de custos da construção (INCC), com peso de 10% no IGP-10, teve alta de 0,71%, acima do 0,47% de fevereiro.