Título: Valorização do real afeta os resultados das calçadistas
Autor: Carolina Mandl
Fonte: Valor Econômico, 18/03/2005, Empresas &, p. B1

A indústria calçadista já sentiu no fim de 2004 o impacto da valorização do real em seus resultados. Os balanços do quarto trimestre de grandes exportadoras como Grendene e Azaléia mostram que a rentabilidade das exportações caiu, gerando reflexos negativos no resultado das companhias. A receita de exportações da Grendene de outubro a dezembro de 2004 caiu 46,4%, para R$ 51 milhões, ante o mesmo período de 2003. No quarto trimestre de 2004, o dólar desvalorizou-se 7,14% frente ao real.

A empresa atribui o lucro 29,5% menor no último trimestre de 2004 ao câmbio e à exportação de itens menos sofisticados. A participação das vendas externas sobre o total caiu de 31,6% para 21,7%. O crescimento das despesas com vendas também colaborou para a queda do lucro, uma vez que cresceram 22,7% no último trimestre, puxados pelos investimentos em publicidade. Além disso, o resultado financeiro negativo aumentou de R$ 18 milhões para R$ 30,1 milhões. A Azaléia também afirma que perdeu dinheiro para exportar em 2004. A companhia não informa o quanto exportou no quarto trimestre, mas ao longo do ano o faturamento praticamente se manteve, enquanto as vendas totais cresceram. Quem menos sentiu esse efeito foi a São Paulo Alpargatas, justamente porque é a empresa que menos exporta entre as três. Apesar de as vendas externas terem quase dobrado em 2004, ainda representam apenas 6% da receita bruta. No último trimestre, devido a um item não-recorrente, o lucro dela caiu. Mas excluído o ganho de uma ação tributária em 2003, o lucro da Alpargatas cresceu 31,8% no quarto trimestre de 2004, para R$ 26,1 milhões quando comparado com o mesmo período de 2003. Em recente entrevista ao Valor, Marcio Utsch, presidente da Alpargatas, afirmou que a empresa sofreu menos o impacto da variação cambial por exportar apenas com sua marca, a Havaianas. "Se precisarmos elevar o preço, é um pouco mais fácil porque o consumidor estrangeiro quer comprar apenas Havaianas", explica. Puxadas pelas vendas internas, as fabricantes registraram receita no mínimo 13% maiores em 2004. A Grendene, por exemplo, vendeu 32,5% mais no mercado interno, uma alta de 23,5%. Para este ano, fica a dúvida do que acontecerá com o setor, que se tornou um grande exportador. Em janeiro, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, o volume de pares exportados caiu 5%, mas o faturamento em dólar cresceu 14%. Dados do varejo apontam que o consumo interno de calçados ainda está em alta, registrando vendas 12,7% maiores em janeiro sobre 2004, segundo a Federação do Comércio de São Paulo. Para a analista Daniela Bretthauer, do Santander, 2005 deve ser melhor para a Grendene por causa do consumo interno. "Além disso, itens como maiores despesas em marketing e piora do resultado financeiro não devem mais aparecer", afirma. No caso da Alpargatas, Marcio Kawassaki, analista da Fator, ressalta que, o fato de ela exportar menos que as demais empresas do setor pode favorecê-la. "Mas não acredito que haverá crescimentos iguais aos de 2004", diz. A expectativa das companhias é de crescimento das vendas. Tanto que Azaléia, Grendene e Alpargatas estão investindo cerca de R$ 100 milhões no aumento da capacidade de produção ao longo deste ano.