Título: Laticínios premiam a qualidade do leite
Autor: Cibelle Bouças
Fonte: Valor Econômico, 18/03/2005, Agronegócios, p. B10

As indústrias de laticínios estão começando a pagar prêmio aos produtores que fornecem leite com maior índice de proteínas e gorduras. A iniciativa, ainda incipiente no mercado, foi impulsionada pela ampliação das exportações de leite e derivados e tem como objetivo aumentar a competitividade das indústrias no exterior. A DPA - Dairy Partners Americas, joint venture entre a neozelandesa Fonterra e a Nestlé - foi o primeiro grupo a implantar o programa, em janeiro deste ano. A Cooperativa Central de Laticínios do Estado de São Paulo (CCL), a Batávia, e a cooperativa mineira Itambé também estão implantando programas semelhantes. Jacques Gontijo, vice-presidente da Itambé, observa que o leite produzido no Brasil possui em média 12,5% de sólidos (gorduras, proteínas e sais minerais) por litro, contra 14% na Nova Zelândia. Com essa diferença, a Nova Zelândia gasta 7 litros para produzir 1 quilo de leite em pó, enquanto o Brasil utiliza 8 litros. "Eles são mais competitivos e para o Brasil ser um grande exportador de derivados precisa melhorar a qualidade do leite, seja com alimentação ou melhoramento genético", diz Gontijo. O programa de premiação também atende à Instrução Normativa nº 51/2001 do Ministério da Agricultura, que torna obrigatória, a partir de julho, a presença mínima de 3 gramas de gordura e 2,9 gramas de proteínas por cada 100 gramas de leite, entre outras exigências. "As empresas estão premiando produtores que oferecem leite com níveis acima desses previstos na instrução", diz Gontijo. A Itambé inicia em junho o programa, que prevê prêmios de até 7% sobre o preço do leite com índice de sólidos acima do exigido por lei. A cooperativa pretende ampliar a industrialização de 2,4 milhões de litros/mês em 2004 para 3,5 milhões de litros/mês. A DPA, líder em captação de leite, oferece prêmio de R$ 0,029 por litro com teor de gordura acima de 4,4% e R$ 0,077 por litro com teor acima de 4%. O programa envolve sete mil produtores e 120 cooperativas no Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Bahia. A Nestlé informou, via assessoria de imprensa, que já houve melhora na qualidade do leite desde a criação do programa. A empresa espera ampliar em 6% o processamento este ano, mas não informa o volume. Cristiane de Paula Turco, da Scot Consultoria, observa que a exigência por qualidade começou este ano e deve ser adotada principalmente pelos laticínios, para os quais o nível de sólidos influencia na produtividade. "A premiação por qualidade deve se tornar uma tendência no longo prazo." A preocupação com a qualidade do leite trouxe ânimo novo à subsidiária da holandesa Alta Genetics, sediada em Uberaba (MG). A empresa está investindo US$ 3 milhões na montagem de uma central de produção de material genético em Uberaba, que começa a operar em junho. A unidade terá capacidade para 164 touros, mas vai iniciar operação com 96. Cláudio Aragon, gerente de gado de leite importado da empresa, diz que a unidade irá atender a demanda por material genético para gado de leite no país e de gado de corte para América do Sul e Europa. Ele diz que a receita da empresa deve crescer 25% este ano. Heverardo de Carvalho, presidente da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), diz que o melhoramento genético para gado de leite é iniciativa nova no Brasil e pode elevar as vendas de sêmen este ano. Em 2004, as vendas de sêmen de gado de leite nacional caíram 3,25%, para 1,206 milhão de doses e as de importado subiram 3,41%, para 1,375 milhão.