Título: Planalto retoma diálogo com cúpula do PMDB
Autor: Maria Lúcia Delgado e Taciana Collet
Fonte: Valor Econômico, 22/03/2005, Política, p. A36
O governo deu sinais concretos ontem de que começa, a partir de agora, uma mudança na condução da articulação política com o claro objetivo de superar o cenário de descontrole em votações na Câmara e de trazer o PMDB para a aliança em 2006 no projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente assumiu pessoalmente o diálogo institucional com o PMDB, contando com a ajuda do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e convidou o presidente nacional da legenda, deputado Michel Temer (SP), para uma conversa ontem, no Palácio do Planalto. O fato de o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, sequer ter participado do encontro, mostra que realmente deve ser afastado do posto. Lula disse a Temer que ele terá um canal de comunicação direto e permanente com o ministro José Dirceu e com o presidente nacional do PT, José Genoino. O petista e Temer já conversaram ontem por telefone e marcaram uma reunião para amanhã, em Brasília. Ambos começam a discutir pontualmente a possibilidade de alianças nos Estados entre PMDB e PT. O presidente manifestou a Temer, ainda, o interesse de conversar individualmente com todos os governadores do PMDB. Por sugestão de Temer, que deve ser acatada por Lula, há possibilidade de ser organizada uma reunião coletiva com os governadores da legenda. Ontem mesmo o presidente do PMDB começou a fazer contato com os governadores e dirigentes da ala oposicionista do partido, como Orestes Quércia e Anthony Garotinho. "Qualquer aliança há que se colocar sempre o PMDB numa posição de realce como convém ao tamanho do partido", observou Temer. "Quando me perguntam se a conversa do presidente da República importaria na tentativa de uma aliança, digo que sim. E como ficaria o PMDB? É intuitivo que seria para a Vice (Presidência), e não para a Presidência da República, mas não é essa a posição oficial do PMDB", acrescentou ele, sempre pontuando que a última convenção nacional do partido optou pela posição de independência em relação ao governo. Para dirigentes do PMDB ligados a Temer, a avaliação é de que o governo tenta corrigir equívocos do passado, quando tinha como interlocutores centrais o hoje presidente do Senado, Renan Calheiros, e o ex-presidente José Sarney, sem interface com outras alas do partido. Já para os interlocutores de Lula, está evidente o enfraquecimento político de Garotinho na legenda, o que abre espaço para o PMDB oposicionista se reaproximar de Lula contando com a Vice-Presidência em 2006. "A tendência política hoje é uma aliança do PMDB com Lula. É esse movimento que está ocorrendo agora", explicou um aliado próximo de Lula. "É evidente que o presidente está interessado no cenário de 2006, mas registrei a ele mais uma vez que há convenções no PMDB. Uma convenção já definiu pela candidatura própria (em 2006), e só uma outra convenção poderá modificar esse quadro", disse Temer, ao sair da reunião com Lula. A próxima convenção oficial do PMDB será em março de 2006, quando o partido elege a nova Executiva Nacional. Para tratar da eleição à Presidência e dos rumos do partido nesse sentido, haveria uma outra convenção em junho de 2006. As convenções podem ser antecipadas, em função dos cenários políticos, mas ainda é cedo para cogitar essa possibilidade, dizem os pemedebistas. Segundo Temer, Lula manifestou claramente a preocupação com a governabilidade e a condução de votações na Câmara. "O presidente almejaria muito que o PMDB estivesse unido em torno dessas questões (projetos de interesse nacional)", relatou o presidente do PMDB. Muito mais receptivo que em momentos anteriores, Temer disse que "no tocante à aprovação de projetos de interesse do país, não haveria dificuldades para buscar a unidade partidária". O presidente Lula fez um apelo a Temer para que o PMDB ajude o governo a conter a votação de projetos que representem aumento desenfreado de gastos públicos, como ocorreu nas últimas semanas. A desunião do PMDB, de acordo com Temer, preocupa muito o governo. A atuação de Anthony Garotinho sobre a bancada da Câmara teria sido um dos fatores centrais de desunião. Temer se aproximou do ex-governador do Rio, mas agora, na avaliação dos governistas, tenta um recuo tático, por racionalidade política. A unidade da bancada do PMDB no Senado fortaleceu o papel de liderança de Renan Calheiros e Sarney. De fato, o partido entrou numa ciranda bélica na Câmara. Por vários dias, governistas e oposicionistas alimentaram uma briga ferrenha para decidir quem ocuparia a liderança na Casa, se o deputado José Borba (PR) ou o mineiro Saraiva Felipe. Hoje, Borba está na liderança, mas a situação continua politicamente muito frágil. O presidente Lula chegou inclusive a ponderar a Temer que a desunião do PMDB faz com que o partido perca força nas negociações da reforma ministerial. Foi cogitada a transferência do Ministério das Comunicações do PMDB para o PP, quadro que começa a se reverter com a pressão da bancada na Câmara. Temer informou a Lula que pretende conduzir uma negociação na legenda, ao longo desta semana, para pacificar a disputa pela liderança na Câmara. "Reiterei ao presidente que faríamos esforço pela unidade em torno da governabilidade", disse Michel Temer. A decisão da convenção nacional do PMDB, disse ele, "não significa que o PMDB vai se opor aos projetos do governo".