Título: Juro alto atrai forte fluxo de dólar ao país
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 22/03/2005, Finanças, p. C1

Dados das contas externas divulgados pelo Banco Central permitem mapear as origens do forte fluxo de dólares ao país deste início de ano. Como já se imaginava, capitais de curto prazo aproveitam para ganhar com os altos juros reais em vigor no país, mas há também volume importante de capitais que entra - investimentos diretos e em ações - devido às perspectivas favoráveis de crescimento da economia. Esse fluxo foi decisivo para ampliar as reservas internacionais, a despeito de fortes remessas de lucros e dividendos (US$ 1,720 bilhão) em fevereiro, que reduziram o superávit em conta corrente. No primeiro bimestre, o BC adquiriu US$ 6,3 bilhões no mercado. Cerca de um terço desse montante (US$ 2,2 bilhões) se origina do saldo positivo da conta corrente em mercado (excluem pagamentos da dívida externa oficial), que, por sua vez, é puxado pelo comércio. Alguns analistas econômicos sustentam que o saldo comercial - que se mantém alto apesar da taxa de câmbio menos favorável para os exportadores - deve-se a ganhos de arbitragem. Exportadores estariam fechando contratos de câmbio para tomar empréstimos em operações de Antecipação de Contrato de Câmbio (ACCs), pagando juros em dólar, e aplicar os recursos internamente, recebendo juros altos em real. Dados do BC sustentam essa tese. Os volumes de ACCs cresceram 31,9% entre o primeiro bimestre de 2004 e de 2005, passando de US$ 4,117 bilhões para US$ 5,431 bilhões. Os exportadores também estão fechando mais ACCs, proporcionalmente às suas vendas: essas operações cobriram 35,3% das exportações no primeiro bimestre de 2005, ante 32,8% em igual período de 2004. Outro fator que explica a abundância de dólares no mercado é que os bancos estão com mais apetite para ficar vendidos em moeda estrangeira. Eles injetaram US$ 2,2 bilhões no mercado, ampliando sua posição vendida, de US$ 1,368 bilhão para US$ 3,414 bilhões, entre dezembro e fevereiro. A origem dos dólares desovados pelos bancos são variações nos seus ativos no exterior. Isto é: para aproveitar os altos juros fixados pelo BC, os bancos estão trazendo ao país depósitos mantidos no exterior e/ou tomando mais crédito em linhas interbancárias. A surpresa nos dados do BC é que capitais mais estáveis tiveram papel importante na oferta de dólares. Sob a forma de investimentos diretos, ingressaram US$ 2,1 bilhões no primeiro bimestre de 2005, pouco acima dos US$ 2 bilhões observados em igual período do ano anterior. Outro destaque são os investimentos em ações, de US$ 1,9 bilhão, ante US$ 1,1 bilhão, na comparação entre o primeiro bimestre de 2005 e 2004, respectivamente. Esse tipo de capital tem qualidade inferior aos investimentos diretos, porque é mais volátil; mas, de qualquer forma, está mais ligado às perspectivas de crescimento econômico do que aos ganhos no diferencial de juros internos e externos. "A maior parte desses ingressos (US$ 1,236 bilhão) se deve a ações negociadas no país, e só uma parte se refere a ADRs (US$ 845 milhões)", assinala o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. As aplicações em fundos e papéis de renda fixa negociados dentro do país - que, portanto, pagam altos juros em reais - vem tendo papel quase insignificante na oferta de dólares. No primeiro bimestre de 2005, entraram apenas US$ 194 milhões. Em março, até o dia 21, mantém-se o forte ingresso de dólares. O BC comprou US$ 2,6 bilhões, dos quais US$ 2,408 bilhões se devem ao superávit no mercado de câmbio, e US$ 218 milhões, ao aumento da posição vendida de bancos. Em fevereiro, as reservas líquidas (excluem empréstimos do FMI) fecharam em US$ 31,426 bilhões.