Título: País tem melhor solvência desde 1970
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Fonte: Valor Econômico, 22/03/2005, Finanças, p. C2
A dívida externa do país foi reduzida em US$ 13,556 bilhões em 2004, graças a pagamentos líquidos feitos pelo setor público e privado. A queda do endividamento, ao lado do acúmulo de reservas internacionais e do aumento de exportações, está produzindo os indicadores de solvência externa mais favoráveis desde a década de 1970. Segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central, a dívida externa total fechou em US$ 201,374 bilhões em 2004, ante US$ 214,930 bilhões um ano antes. Colaboraram para essa queda tanto o setor público, que fez um pagamento líquido de US$ 5,073 bilhões, quanto o setor privado, que amortizou US$ 7,032 bilhões acima de suas captações. A tendência de queda na dívida externa privada não é nova: ela vem desde 1999, com a adoção do regime de câmbio flutuante, que reduziu o apetite das empresas por tomar empréstimos em moeda estrangeira. Desde 1999, o débito privado, que era de US$ 101,637 bilhões, foi reduzido em 33,17% . Na contramão, o setor público, em um primeiro momento, aumentou seu endividamento - sobretudo devido aos saques de empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI). O débito externo do setor público, que era de US$ 97,364 bilhões em 1999, elevou-se em 23% até 2003. Em 2004, caiu pela primeira vez no passado recente, em virtude, principalmente, dos pagamentos ao FMI - que somaram US$ 4,363 bilhões em todo o ano. Também pesou favoravelmente as recompras de títulos da dívida externa feitas pelo BC no mercado secundário, e a opção do Tesouro Nacional de amortizar parte da sua dívida externa com dólares comprados no mercado de câmbio, em vez de rolar papéis integralmente por meio de novas captações. A tendência é de nova queda em 2005, com os pagamentos programados ao FMI (US$ 6,976 bilhões) e a manutenção da política de rolar apenas parcialmente sua dívida externa que vence. A queda da dívida ajuda o país a exibir indicadores mais favoráveis de solvência externa. O BC divulga periodicamente 16 indicadores, como relação dívida/exportações e reservas/juros, dos quais 10 registram os melhores números da série estatística, que começa em 1970. Essa melhora não se deve exclusivamente à dívida externa. Também pesou favoravelmente o aumento nas reservas brutas, pelo conceito de liquidez internacional, que subiu de US$ 49,296 bilhões para US$ 52,935 bilhões entre dezembro de 2003 e 2004; e a expansão das exportações, que atingiram US$ 96,475 bilhões em 2004, ante US$ 73,084 bilhões um ano antes. Entre os indicadores que tiveram melhora está a relação serviços da dívida/exportações, que passou de 72,5% para 53,8%, entre 2003 e 2004. É o melhor percentual desde 1976. Esse indicador nada mais é do que uma relação entre os compromissos do países no exterior com sua principal receita em dólares; sua queda significa que seria necessária uma menor contração no PIB para satisfazer os compromissos, caso ocorra uma crise no balanço de pagamentos. Outro dado que melhorou foi a razão entre reservas e os serviços da dívida, incluindo juros e amortizações, que subiu de 0,9 para 1. Ou seja: no caso de uma crise, as reservas são capazes de cobrir todos os compromissos externos de curto prazo. (AR)