Título: Em 96, cúpula foi derrotada em prévia
Autor: César Felício e Cristiane Agostine
Fonte: Valor Econômico, 21/03/2005, Política, p. A9
Uma prévia muito disputada é receita certa para crise no PT, descontrole na campanha eleitoral e derrota nas urnas. Há quase dez anos, este foi o roteiro seguido na disputa pela prefeitura de São Paulo nas eleições de 1996. Da mesma forma que hoje, Aloizio Mercadante era apoiado pela cúpula . Perdeu a prévia para Luiza Erundina. Ex-prefeita da cidade pelo PT, Erundina hoje está no PSB e atribui a sua saída do partido aos desdobramentos daquela campanha. Mercadante abandonou uma reeleição certa para a Câmara para concorrer à vice-presidência na chapa de Lula em 1994. O apoio na eleição seguinte era uma recompensa ao sacrifício. Erundina era quase uma dissidente: havia desobedecido uma diretriz partidária e aceito o ministério da Administração no governo Itamar, tendo sido punida pelo partido. Nos debates internos, os ataques foram pesados. Erundina acusou Mercadante de ter apoiado pontos do Plano Collor. Este por sua vez, disse que a ex-prefeita estava na rota de saída do partido. Pesou contra Mercadante a popularidade de Erundina nas pesquisas: a ex-prefeita aparecia com quatro vezes mais intenção de voto que o então ex-deputado. Os interessados em se candidatar a vereador foram migrando para a candidatura de Erundina, interessados em seu potencial como puxadora de votos. "Perdi porque o eleitor olhou as pesquisas, mas não avaliou a rejeição que a Erundina tinha que era muito maior do que a minha", avalia hoje o senador, para quem a disputa de 1996 não serve de parâmetro. "Mudei de estatura. Na ocasião era um deputado e hoje sou um senador que teve mais votos na cidade de São Paulo em 2002 do que Marta no primeiro turno da eleição municipal em 2004". Na eleição interna, Erundina contou com a imagem que construiu como prefeita e com a estrutura dos irmãos Gilmar e Arselino Tatto, que controlavam na época o diretório municipal, Erundina recebeu 5 mil votos, ante 3,3 mil de Mercadante. O ex-deputado virou vice da ex-prefeita. No momento em que Erundina começou a ter uma trajetória declinante nas pesquisas, a crise explodiu. Mercadante contestou a condução publicitária da campanha, marcada pela falta de agressividade com os adversários. O marqueteiro Celso Loducca se demitiu e Erundina desautorizou o vice publicamente. O conflito foi fatal para um partido que tinha, na época, uma imagem muito mais marcada pelas divisões internas do que atualmente. Erundina perdeu a eleição para o malufista Celso Pitta e abandonou o partido logo em seguida.(C.F)