Título: Tensão pré-Fed supera inquietação com ata
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 21/03/2005, Finanças, p. C2

Parte do mercado ainda tem esperança de que a ata da última reunião do Copom do Banco Central, a ser publicada na quinta-feira, aponte o improvável: que a elevação de 0,50 ponto feita na semana passada, puxando a Selic de 18,75% para 19,25%, tenha sido a última da série de sete aumentos realizados desde setembro de 2004. Para esses analistas esperançosos, o BC não poderia ter alterado o comunicado pós-Copom - o mesmo das últimas cinco reuniões - pois uma retórica mais frouxa iria anular completamente o impacto da decisão em si. Ao invés de inclinar-se positivamente por causa da alta, a estrutura a termo de juros iria decair, sabotando, do ponto de vista do crédito, o efeito da Selic maior. É por esta mesma razão que essa ala de economista aposta que os termos da ata, embora menos otimistas que o documento de fevereiro, não serão conclusivos. O Copom já pode ter encerrado o ciclo de aperto, mas se saberá ao certo somente no dia 20 de abril, quando o Comitê volta a se reunir. Para outros, já se saberá antes mesmo da publicação da ata. O destino da política monetária brasileira pode ser definido amanhã, dia de reunião do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve (Fed). Apesar de a ata do Copom se referir a encontro ocorrido antes da reunião do Fed, ela será dura ou suave dependendo do que for decidido pelo Fed. Não tanto pela decisão em si sobre a taxa básica dos EUA. O mercado internacional não acredita em elevação superior ao 0,25 ponto usado nas seis últimas reuniões. O Fed descongelou, em junho de 2004, a taxa do patamar de 1% em que ficou estacionada por um ano. Ela subiu 0,25 em todas as cinco reuniões posteriores a essa até chegar nos atuais 2,50%. Amanhã, deve subir para 2,75%.

A grande dúvida se refere à mudança ou não do comunicado pós-Fomc. Se ele suprimir a palavra "comedido" do texto habitual - "a política monetária acomodatícia será removida a um ritmo comedido" - indicará a intenção de acelerar o processo de ajuste. Altas subseqüentes de 0,50 ponto nas seis reuniões ainda programadas para 2005, jogarão rapidamente o Fed Fund para o seu nível histórico de equilíbrio, entre 4% e 5%. Já na reunião de novembro a taxa bateria em 5,25%.

Visão pessimista domina os mercados

Tal aceleração se justifica pela necessidade de atenuar o impacto inflacionário da atual escalada do petróleo. A ameaça de uma política monetária austera, ao provocar imediata alta dos juros dos títulos do Tesouro americano de 10 anos, já poderia conter parte da ofensiva do petróleo. Os especuladores que inflamam a Nymex poderiam rumar para os T-Bonds se os juros de 10 anos subissem rapidamente para a faixa entre 4,70% e 4,80%. Isso tem sérias implicações sobre o Brasil. O Copom teria de recalibrar a política monetária em caso de menor ingresso de dólares no país. Para alguns operadores, esta é a razão para o BC ter parado de comprar dólares nos mercados futuro e à vista. Se a perspectiva hoje vigente nas mesas de operações é de que a farta oferta de moeda estrangeira está no fim, as atuações do BC apenas reforçariam inutilmente uma tendência que logo estará mais clara. Na sexta-feira, o BC de novo se absteve de operar e o dólar, ao contrário da quinta-feira, quando desabou, fechou com leve baixa de 0,14%, a R$ 2,7210. Os próprios bancos não querem vender a moeda diante das incertezas externas. Na hipótese de vir a faltar dólares - e a decisão do CMN de ampliar o prazo concedido aos exportadores para a internalização dos dólares pode contribuir para isso -, a cotação da moeda subirá mais rápido do que caiu em fevereiro. O mercado futuro de juros da BM&F já reflete essas expectativas desconfortáveis. O Copom teria de sustentar por mais tempo o ciclo de alta da Selic para convencer os investidores a manter seus dólares aqui. O juro interno crescentemente alto também teria o objetivo de atrair os recursos dos exportadores. O BC precisa mostra a eles que é mais conveniente transformar seus dólares em reais e aplicá-los no mercado interno do que deixá-los lá fora até o limite do prazo de 210 dias. Se o BC não for vitorioso nesse intento, terá de continuar subindo o juro do mesmo jeito. Só que agora para combater as consequências da fuga de dólares: as pressões sobre a inflação. A percepção de que o aperto se prolongará desencadeou fortes altas das projeções mais longas de CDI. Enquanto o contrato mais curto meramente ajustou-se à previsão de que a Selic subirá para 19,75% no dia 20 de abril, os contratos para a virada do semestre e do ano dispararam. O primeiro saltou de 19,45% para 19,52%. E o segundo, de 19,19% para 19,34%.