Título: Liberalização do câmbio torna país mais vulnerável
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 21/03/2005, Finanças, p. C2
Em um estudo inédito, o economista João Sicsú, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), se contrapõe às novas regras de câmbio aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que a seu ver irão desembocar no fim da cobertura cambial nas exportações - em que os exportadores são obrigados a trazer ao país e trocar em reais os dólares obtidos nas vendas externas. A medida, se concretizada, poderá "alterar profundamente o funcionamento da economia", tornando o país mais vulnerável às crises externas, pressagia o professor. "Sob essas novas condições o Banco Central terá dificuldades para formar reservas, já que o volume de dólares internalizados pelos exportadores poderá se reduzir", avisa Sicsú. Para ele, se não fossem os juros estratosféricos da economia brasileira, a entrada de dólares no país sofreria declínio imediato, por conta da dilatação do prazo de cobertura cambial para 210 dias. Sicsú está convencido de que o uso de juros altos para atrair dólares tenderá a se consolidar nesse novo cenário de flexibilização da conta de capitais, pois a entrada da moeda americana via saldo comercial, "antes uma variável previsível e estável", se tornará "instabilizadora". No seu trabalho, Sicsú ressalta que o fluxo comercial passará a ser movido por cálculos especulativos. "Os exportadores irão proceder como investidores meramente financeiros, calculando o melhor momento de internalizar seus dólares no país para obter maiores ganhos." A mudança vai levar os superávits comerciais a não serem mais sinônimos de ingressos de dólares, diz. Para o economista, o que está subjacente a esta concepção de defesa do fim da cobertura cambial é "a idéia que um banco central que opera com um regime de taxa de câmbio plenamente flutuante cuja moeda é totalmente conversível não precisa formar reservas internacionais", denuncia. "Nesse modelo, a escassez de dólares na economia provocaria desvalorização cambial que, por sua vez, seria estímulo para exportadores trazerem seus dólares depositados no exterior, o que tenderia a valorizar o câmbio novamente; ou seja, o câmbio seria flutuante, mas estável, dada a ação dos exportadores, e não mais do banco central." Ele se refere a artigo recente do ex-presidente do BC, Gustavo Franco, escrito a quatro mãos com o também ex-diretor da área externa do BC, Pinho Neto, sugerindo que as "reservas privadas" no exterior poderiam ser consideradas parte das reservas internacionais do país, "uma segunda linha de reservas". Milton Friedman, um expoente do monetarismo, já defendia essas idéias na década de 50, recorre Sicsú. "Se um país adota sistema cambial de flutuação pura, seu banco central não forma reservas e, portanto, não intervém no câmbio, os especuladores estabilizariam a taxa de câmbio." Paul Davidson, um dos maiores críticos de Friedman, argumentava que diante da ocorrência de eventos inesperados em trajetórias de preços (como choques cambiais), as expectativas se tornam elásticas - não convergentes, contrapôs. "Elas tendem a se espalhar, com os agentes se dividindo e tomando decisões diversas de compra ou venda do ativo", explicou Sicsú, realçando que nesse caso " o que predomina é a especulação, a volatilidade e não a estabilidade". Diante da disposição do CMN e do BC de colocar o Brasil na rota da conversibilidade plena, Sicsú evoca a história recente das crises cambiais dos anos 1990. "Elas mostraram que a ação especulativa é instabilizadora e que é a ação pública, dirigida, que deve se opor aos humores do mercado." Ele lamenta que o BC não se preocupe em ampliar reservas (US$ 33 bilhões, ante US$ 200 bilhões da Coréia), quando a conjuntura externa pisca "luz amarela" por conta dos juros nos EUA.