Título: Nomeação para o Planejamento foi vitória de Palocci
Autor: Taciana Collet
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Política, p. A8
A proximidade do deputado federal Paulo Bernardo (PT-PR), 53 anos, com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o bom trânsito com a equipe econômica foram fatores que pesaram para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeá-lo, ontem, ministro do Planejamento. A credibilidade do parlamentar junto ao governo aumentou depois que relatou, na Câmara, o projeto de lei que criava normas para a implementação das Parcerias Público-Privadas (PPPs). Outra missão espinhosa foi a relatoria da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) em 2004, quando atuou em total sintonia com o governo para barrar qualquer excesso político na própria base aliada que pudesse contestar a meta de superávit primário em 4,25% do PIB. Além da experiência acumulada na Comissão Mista de Orçamento do Congresso, que até então presidia, Paulo Bernardo já exerceu por duas vezes o cargo de secretário da Fazenda, no Mato Grosso do Sul , a convite do governador Zeca do PT, e em Londrina, sua área de atuação eleitoral. Assumiu os dois postos em meio a um cenário de caos administrativo, com dívidas acumuladas a fornecedores, atraso na folha de pagamentos e descontrole com a sonegação fiscal. Em Londrina, conseguiu deixar a secretaria superavitária. Petista moderado, Paulo Bernardo integrava o que os parlamentares costumavam chamar de "tropa de choque do governo". Nunca hesitou em defender o presidente Lula no Congresso, mas também fez alertas a atitudes políticas que considerava equivocadas. Uma delas foi avisar, com firmeza, que um possível caos se aproximava no debate do orçamento. As sucessivas críticas de Bernardo contribuíram para o Congresso instalar uma comissão especial com intuito de estudar não só as regras internas de funcionamento da Comissão Mista de Orçamento, mas toda a trajetória de discussão e votação da peça orçamentária da União. Com um estilo descontraído e brincalhão, Bernardo sempre esteve no centro das decisões políticas da cúpula petista. Aos ministros e colegas, falava sem pudores, muitas vezes, sobre erros na articulação política. A desunião no PT e a rebeldia da esquerda partidária não raro deixam o deputado totalmente irritadiço. A vida profissional do parlamentar sempre esteve ligada ao setor bancário. Na ditadura, teve que abandonar o curso de Geologia na Universidade de Brasília (UnB), em 1976. Não chegou a concluir curso universitário posteriormente. Logo em seguida, foi aprovado em concurso para o Banco do Brasil e mudou-se para São Paulo. Em 1982, foi transferido para o Paraná. A filiação ao PT ocorreu em 1985, devido à atividade política no sindicato dos bancários. A categoria foi fundamental para elegê-lo deputado federal em 1990. O primeiro mandato foi marcado pelos embates contra o governo de Fernando Collor de Mello e defesa pelo impeachment e dos funcionários da Caixa Econômica Federal punidos por participarem de greves. Na CPI dos Anões do Orçamento, foi uma das figuras centrais a defender o orçamento impositivo, ao lado de outros parlamentares da esquerda. Foi ele um dos deputados a levar a proposta de orçamento impositivo ao então presidente do Congresso Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Até hoje o projeto tramita no Congresso. Em 1994 foi reeleito e presidiu a Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara. Em 1996, concorreu, sem sucesso, à prefeitura de Londrina:obteve um modesto quarto lugar. Na eleição seguinte, em 1998, não se elegeu e assumiu a secretaria da Fazenda no Mato Grosso do Sul. Na presidência da Comissão de Orçamento no ano passado, identificou vários problemas não só de tramitação, mas de concepção orçamentária, e preparou uma lista de mudanças que considera necessárias e sobre as quais poderá influir agora, como ministro. Ele sugere a elaboração de uma nova lei do gasto público, em substituição à lei 4.320, de março de 1964 ; a extinção do Tribunal de Contas da União e criação de uma auditoria-geral eminentemente técnica; e prazo limite para vigência de receitas e despesas vinculadas, entre várias outras mudanças no processo de elaboração e aprovação do orçamento, de forma a se ter a lei sancionada o mais próximo possível da executada. Antes de aceitar o convite ministerial, estava cotado para disputar cargos majoritários em 2006. Ao lado do presidente da Itaipu Binacional, Jorge Samek, aparecia como provável candidato ao governo do Estado.