Título: Jucá ocupa cargos-chave no governo desde 1985
Autor: Taciana Collet
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Política, p. A8
Até chegar a ministro da Previdência e Assistência Social de um governo de esquerda, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) serviu a todos os outros à direita que o antecederam, sempre filiado ou nas vizinhanças do partido de plantão no Palácio do Planalto. Isso não é problema para esse pernambucano de 50 anos, pai de cinco filhos, que se define um político "centro-esquerda, liberal em alguns momentos, mas sem prescindir do papel do Estado", cuja principal qualidade reconhecida no Congresso é a de ser um "operador" de mão cheia. Ele próprio prefere se classificar como descascador de abacaxis. "Minha faca é pequena, mas é afiada. Eu não sou o Tom Cruise, mas adoro uma missão impossível", diz, orgulhoso. "Meu negócio é trabalhar. Eu me considero um senador-operário. Eu olho para um determinado fato e penso em como melhorá-lo." A fama de "operador" e "descascador de abacaxis" não foi construída à toa. O ponto de partida foi o governo José Sarney (1985-1990), quando trocou a presidência do projeto Rondon pela presidência da Funai (Fundação Nacional do Índio), uma função espinhosa que usou como trampolim para convencer Sarney a nomeá-lo governador de Roraima, com o argumento de que era alta a população indígena do novo Estado, criado na Constituição de 1988. Jucá criou raízes na política em Roraima, base a partir do qual iria atravessar os governos Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso- do qual chegou a ser líder pelo PSDB- e, agora, Luiz Inácio Lula da Silva. O PT tem pouco mais de dois anos na presidência, mas Jucá já apresenta uma invejável folha de serviços prestados ao governo. Foi ele quem apresentou a Lula as alternativas orçamentárias que convenceram o presidente a se fixar no aumento de R$ 260 para R$ 300 do salário mínimo. As planilhas de Jucá variavam de acordo com o valor e a data para o aumento. Lula gostou da opção de R$ 290 a partir de janeiro de 2005, que só não saiu por oposição das centrais sindicais .O mérito de Jucá, reconhecido por Lula, foi o de ter demonstrado que havia mais alternativas orçamentárias além das que recebia do governo. Pela condição de "operador" é que Jucá recebeu de Renan Calheiros (AL), então líder do PMDB no Senado, algumas as missões espinhosas (leia o quadro) que o levaram a se credenciar ao ministério. Mas é também o "operador" que o PMDB espera ver na Previdência Social, função que Amir Lando se mostrou incapaz de exercer. Além de aliar-se aos fiscais da Previdência, o ex-ministro não teve êxito - nem vontade - na tarefa de usar o ministério para ampliar os espaços do PMDB. Quando Ricardo Berzoini trocou a Previdência pelo Trabalho, deixou os principais cargos do ministérios, sobretudo as gerências regionais, nas mãos do PT. Lando mexeu pouco ou quase nada, e aos poucos foi perdendo o apoio do PMDB do Senado. O ex-ministro também não conseguiu entrar na Secretaria de Previdência Complementar, considerada um feudo petista. À certa altura, desabafou: "Me sinto como a rainha da Inglaterra". A sorte de Jucá dependerá de sua habilidade em conciliar a condição de "operador" de Lula com a de "operador do PMDB". Escolhido há mais de duas semanas para substituir o ministro Amir Lando, Jucá recebe o cargo sabendo o que quer fazer: usar a "faca afiada". Sua meta é reduzir em pelo menos 20% do déficit da Previdência - "algo entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões, o que equivale a todo o dinheiro previsto para investimento para 2005", diz. Para Jucá, há espaço para combater o déficit. "É preciso ajustar o controle. Quanto mais se facilita, mais há espaço para desvios", diz. "Um dos problemas é que se terceirizou a questão da pericia, o custo passou de R$ 3 bilhões para R$ 9 bilhões, triplicou. Facilitar o atendimento não é facilitar nos controles", adverte. Jucá acha que é preciso estudar a contribuição pelo faturamento das empresas para financiar a Previdência. Mas a médio e longo prazos. "Não dá para discutir aumento de receita - a não ser pela inclusão social - sem primeiro acabar com os gargalos e os ralos. A curto prazo, pensa na economia informal. "Ela é informal para a Previdência, mas é formal na demanda social".