Título: Opção pelo consenso consigo mesmo
Autor: Rosângela Bittar
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Política, p. A10

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva jogou ontem a partida mais emocionante, até agora, da reforma ministerial que está em jogo desde outubro do ano passado. Preencheu um cargo que estava vago, o de Ministro do Planejamento, nomeando o deputado Paulo Bernardo, um político do seu partido, o PT, afinado com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o comandante da economia no governo petista, que lutou por esta escolha ao longo de todo o processo. Ao manter a unidade na equipe econômica, e com um nome de reconhecida qualidade entre os quadros do PT, Lula ganhou vários pontos. O movimento tem coerência e representatividade política. Somou outros pontos ao trocar o ministro da Previdência, colocando ali um senador do mesmo partido do antecessor, o senador Romero Jucá que, também afinado com o ministro Palocci, terá administrativamente condições de dar o choque de gestão a ser proposto pelo presidente nessa área. Politicamente, Jucá arrasta outra vantagem: a de manter o presidente do Senado, Renan Calheiros, seu padrinho, ao lado do governo. Com Renan, o presidente Lula poderá tentar equilibrar a ação do presidente Severino, se ele vier a cumprir ameaças de conduzir os trabalhos da Câmara de uma forma nefasta para o governo. O PT não poderá queixar-se por haver, a troco de nada, ter se exposto tanto, inclusive com a promoção de reuniões conspiratórias na casa do ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, para derrubar o coordenador político Aldo Rebelo, um auxiliar que o presidente relutou sempre em dispensar, resistindo a este tipo de pressão dentro de casa. Pelo menos nesta atual ciranda de mudanças, o PT não conseguiu derrubar o ministro do PCdoB, mas ganhou muito. Manteve os dois ministérios que perderia na reforma, o das Cidades e o da Saúde, de longe os melhores em termos de cargos para empregar petistas, capilaridade nos estados e verbas boas para os efeitos especiais dos palanques eleitorais de 2006. O PT não perdeu nada, a não ser o que já não tinha.

Lula preferiu seus amigos aos amigos dos outros

A reforma que estava praticamente anunciada, com nomes sendo jogados ao debate a cada dia, troca de posições às vezes até da manhã para a tarde, da área social para a econômica, numa polivalência nunca imaginada e em ritmo de alegria de dar pena, não iria resolver mesmo o problema de ineficiência de gestão do governo. O governo já nem falava mais nisso. Nenhuma das idéias de mudança expostas, também, não daria a Lula a maioria garantida no Congresso. A reforma que vinha sendo anunciada a cada dia não serviria, ainda, a que os partidos vendessem, agora, certezas futuras de aliança eleitoral para doar ao presidente Lula o seu tempo gratuito de propaganda eleitoral na televisão. Lula preferiu jogar todas as conversas para o alto e buscar apenas o consenso com ele próprio. Fez as mudanças de agora como havia feito, no fim do ano passado, as trocas de ministro da Defesa e de presidente do BNDES: com suas próprias idéias e soluções. Dispensou partidos e políticos fundamentais, agora, como havia dispensado o PMDB no início do seu governo: depois de tudo acertado. Desde o início, não queria nomear José Dirceu ou João Paulo Cunha para a Coordenação Política, como exigia o PT; muito menos queria para este cargo ou qualquer outro Roseana Sarney, do oposicionista PFL, uma invenção que lhe foi imposta pelo PMDB, como fato consumado, para resolver um problema interno do partido; Lula nunca quis demitir Olívio Dutra, apesar de todas as avaliações negativas, e perdeu o momento certo de afastar Humberto Costa, agora uma celebridade no governo com a ação política no Rio que abateu o adversário César Maia em plena decolagem. Avaliados como ineficientes, o presidente deve ter refletido sobre a conveniência de trocar esses ministros por outros de eficiência não comprovada. Os padrinhos de Roseana e Ciro Nogueira terão que esperar mais um pouquinho. João Paulo Cunha é do PT, e da cúpula partidária, o que significa que não há por que temer o ostracismo no governo petista. E param por aí as perdas momentâneas. Como a reforma não iria resolver nenhum tipo de problema, Lula preferiu, em vez dos amigos dos outros, ficar com os seus amigos. O desabafo do impaciente Severino, ao cobrar em discurso decisão do vacilante presidente, deu a Lula apenas o ponto final que ele estava procurando há tempos para interromper tão doloroso e inútil processo.