Título: Severino diz que segue governista e debocha da reforma ministerial
Autor: Maria Lúcia Delgado e Henrique Gomes Batista
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Política, p. A10
O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), pivô da decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para não mais fazer uma ampla reforma ministerial, reagiu com sarcasmo e hostilidade ontem no Congresso. "Eu indiquei um nome, mas é o presidente quem decide. Não posso me responsabilizar por uma reforma ministerial. É prerrogativa do presidente, da mesma forma que eu tenho as minhas", argumentou. "Estão culpando a mim? Que coisa", acrescentou, em tom de deboche. O tom do discurso de Severino, que ameaçou migrar para a oposição caso Lula não desse o cargo ao deputado Ciro Nogueira (PP-PI), mudou drasticamente: "Tá louco? Eu gosto é do governo", disse pela manhã, quando questionado se se tornaria um oposicionista. "Não vou mudar minha posição em relação ao governo por causa da reforma. Sempre votei com o governo quando era um projeto para o bem da sociedade e contra quando a prejudicava", disse mais tarde. A derrota política de Severino ficou explícita no discurso de seus correligionários. "Severino fez uma declaração emocionada. Houve um desvio verbal igual ao de Lula no Espírito Santo (quando disse sobre prováveis casos de corrupção no governo anterior)", comparou, também com sarcasmo, o líder do PP na Câmara, José Janene (PR). "Ministério a mais, ministério a menos não vai mudar nossa posição", complementou, também negando a ida do PP para a oposição. A situação era tão constrangedora que o presidente nacional do PP, Pedro Corrêa, se refugiou para escapar da imprensa. A atitude de Lula encontrou abrigo entre parlamentares da base aliada e também em parte da cúpula do PMDB. "Achamos uma decisão correta, equilibrada. Em nenhum momento o PMDB criou problema. O partido deixou o presidente à vontade, e vamos continuar deixando-o à vontade para que possa fazer uma reforma como ele quer, como o país quer, que melhore o funcionamento com o governo e a relação com o Congresso Nacional", disse Renan Calheiros, presidente do Senado. Calheiros responsabilizou Severino indiretamente pela decisão de Lula. "Entendo que talvez os físicos, inspirados na lei de Newton, expliquem a decisão do presidente", disse, lembrando o ensinamento da física de que para cada ação há uma reação em mesma intensidade e sentido oposto. "Fica absolutamente claro que o presidente não quer que haja pressão sobre a reforma que ele quer fazer", emendou Calheiros. Na oposição, a suspensão da reforma foi motivo de crítica e chacota. "A Câmara hoje é o caos do início da criação. Tomara que no sétimo dia Lula descanse. O presidente mostrou que não comanda o PT, e que tem medo do PP e de seus aliados", disse o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM).