Título: Medo de desemprego freia recuperação de Lula
Autor: Henrique Gomes Batista e Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Política, p. A12

A nona pesquisa CNI/Ibope sobre o governo Lula, divulgada ontem, demonstra que em março foi interrompido o ciclo de recuperação do governo junto a opinião pública. A pesquisa aponta que a avaliação, a aprovação no governo e a confiança no presidente caíram em relação à última pesquisa, realizada em novembro. A avaliação de políticas sobre inflação, desemprego e juros também piorou. Todo esse cenário já afeta as simulações para as eleições de 2006, onde o atual presidente perde intenção de votos em todos os três cenários propostos, com as pesquisas indicando segundo turno em duas das três possibilidades. Nas simulações, o prefeito do Rio, César Maia (PFL), foi o principal beneficiário. Aparece empatado em segundo lugar com o tucano Geraldo Alckmin e com o pemedebista Anthony Garotinho em um dos cenários, todos com 12%, ante 42% de Lula. Mais que dobrou seus percentuais em relação à rodada anterior. A pesquisa aconteceu entre os dias 10 e 14 de março, após a intervenção nos hospitais da cidade decretada pelo governo federal. O pefelista buscou imediatamente capitalizar o resultado. "Não acreditei em manipulação política da intervenção , porque seria sujo demais. Hoje (ontem), depois de conhecer os números da pesquisa, vejo que não pode ser mera coincidência. Tenho certeza de que o cidadão irá entender este ato de agressão e dará a resposta que bem merecem, fazendo voltar para a cabeça deles, como se fosse um bumerangue, todas as torpezas dessa baixeza política", disse Maia. O pefelista contou com dois meses de propaganda eleitoral gratuita de seu partido na televisão. Embora as quedas de avaliação e na aprovação do governo e na confiança de Lula sejam pequenas - respectivamente 2% (dentro da margem de erro de 2,2%), 4% e 3% -, esse fenômeno foi considerado importante por Marco Antônio Guarita, diretor de operações da CNI. "Houve uma quebra da tendência, forçada principalmente pela pior expectativa econômica da população", disse. A expectativa para os próximos seis meses, de acordo com a pesquisa, é que o desemprego vai aumentar para 52% dos entrevistados. Em novembro, apenas 43% dos pesquisados tinham essa avaliação. A desaprovação da política de juros do governo também aumentou de 52% em novembro para 61% em março. A avaliação da estratégia de combate à inflação também aumentou de 49% para 51% entre os dois levantamentos, ou seja, dentro da margem de erro. Na atual pesquisa, a CNI também pediu para incluir uma avaliação sobre a política tributária do governo: 68% dos entrevistados desaprovam a atuação de Lula para o setor. "Esse novo item já estréia como campeão de desaprovação entre as áreas do governo", afirmou Guarita. A pesquisa também aponta que para 54% dos entrevistados os impostos aumentaram muito nos últimos anos e 21% consideram que aumentaram pouco, contra 5% que analisam que os impostos diminuíram - muito ou pouco. A avaliação negativa da área de Saúde do governo também cresceu de 20%, em novembro, para 25%, no atual levantamento. Esses dados, somados a uma maior percepção de notícias negativas sobre o governo (32% agora contra 21% em novembro), afetaram o desempenho do presidente Lula nos cenários possíveis das eleições de 2006. "O segundo turno ganha possibilidades reais", afirmou Amaury Teixeira, analista da MCI, empresa contratada pela CNI para interpretar a pesquisa. Ele lembra que, se no cenário com Alckmin o segundo turno é provável, na simulação com José Serra a segunda rodada é certa. O petista consegue 39% e o tucano 27%. César Maia soma 8% e ultrapassa Garotinho, com 7%., com Alckmin ele é provável - Lula teria 42% das intenções de voto contra 39% dos demais candidatos somados, ou seja, dentro da margem de erro - e que apenas na simulação com Aécio a reeleição estaria garantida ainda no primeiro turno. Os pré-candidatos tucanos - o prefeito de São Paulo, José Serra e os governadores Geraldo Alckmin (SP) e Aécio Neves (MG) - e o ex-governador e atual secretário de governo do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PMDB) também sofreram queda. A queda do governador paulista ocorreu antes da recente crise penitenciária e da Febem no Estado, que desdobra até hoje e pode afetar negativamente a imagem de Alckmin. "Um ponto que chama a atenção nos levantamentos de 2006 é o bom resultado da senadora Heloisa Helena (PSOL), que teve leve crescimento em dois cenários mas já desponta com força em setores importante, com 6% de intenções de votos entre os eleitores com nível universitário, nas capitais e entre jovens de 16 a 24 anos", afirmou Amaury Teixeira. Para ele, a senadora cresceu mesmo sem propaganda política e mesmo estando afastada da mídia no recesso do Congresso.