Título: TV digital, oportunidade e não um risco
Autor: José Inácio Pizani
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Opinião, p. A14
Não há nação em desenvolvimento que, como nós, tenha conseguido na televisão erguer uma barreira à invasão da cultura estrangeira apenas lançando mão da competência técnica e artística. Das cinco redes comerciais, três têm estúdios próprios para produção de audiovisual, sendo que algumas estão em pleno processo de expansão. Há produções brasileiras na área de teledramaturgia em três delas e a quarta está se preparando para voltar a produzir novelas. O jornalismo televisivo hoje está presente em cem por cento do território nacional. A importância que isso tem para a cultura brasileira e para a manutenção de uma identidade nacional forte é evidente. Na hora de enfrentar os novos desafios tecnológicos do setor - e me refiro ao advento da televisão digital - governo e sociedade têm de ter esse quadro bastante claro. Trata-se de um momento para levar adiante este ativo nacional e não para colocá-lo em risco. Da parte das empresas de televisão, tenho certeza de que o compromisso com o progresso é o mesmo desde 1950, quando a primeira emissora foi inaugurada. Respondendo às revoluções técnicas com determinação, os empresários jamais se negaram a investir, e, reconheçamos, contaram sempre com o ambiente regulatório necessário para a consolidação do setor. Os melhores exemplos são a montagem das redes nacionais e o sistema de transmissão em cores. Agora que o país está diante da adoção da transmissão digital de TV, é preciso que o passado nos ensine. A primeira lição é que a sua adoção é um imperativo e deve ter como objetivo primordial a transmissão de imagens em alta definição, similar àquela que o espectador vê no cinema. Foi assim nos países onde a televisão é forte: EUA, Canadá, México, Austrália e Japão, entre outros. Televisão é fundamentalmente imagem, e a transmissão em cores é o melhor exemplo. Quando, em 1972, foi ao ar "O Bem Amado", a primeira novela colorida, muitos ainda acreditavam que aquilo se tratava de um luxo e que durante muitos anos os brasileiros teriam de conviver com a televisão em preto e branco. A conspirar, o preço proibitivo dos aparelhos coloridos. Em pouco tempo, não somente todas as produções eram coloridas como também o avanço técnico baixou os preços dos aparelhos e os disseminou por toda a sociedade. O mesmo acontecerá com os aparelhos de alta definição. Ver TV hoje é ver TV em cores, como bem destacou a Abert em um documento recente. No futuro, ver TV será ver TV em alta definição. Ao setor, caberá adotar, sempre, a melhor imagem de acordo com a melhor tecnologia, num processo de evolução constante.
Substituir emissoras por operadoras é jogar no lixo uma indústria que, até aqui, cumpriu sua missão
Estando disponível tal tecnologia, é ocioso discutir modelos que não prevejam a sua adoção em 100% do tempo: quem não adotá-la estará fora do mercado, assim como teria sido expulsa do mercado a emissora que não tivesse adotado a cor no passado. Da mesma forma, sem alta definição será impossível continuar competindo, em pé de igualdade, com os concorrentes estrangeiros, que já a adotam. É por esses motivos que todo o setor vê com grande preocupação o estudo que o CPqD preparou, mapeando a cadeia de valor de nosso mercado e apontando três cenários para a adoção da transmissão digital. A rigor, o cenário só poderia ser um: aquele com as emissoras transmitindo imagens em alta definição. O que talvez tenha levado o CPqD a cair na tentação de descrever mais de um cenário é a especificidade técnica da transmissão digital. Com ela, uma emissora pode usar seu canal integralmente para transmitir imagens em alta definição ou subdividi-lo em vários se as imagens forem de baixa resolução, como hoje. Tanto num caso como em outro, as imagens podem ser transmitidas a aparelhos instalados em ambientes móveis, como carros e trens, e a dispositivos portáteis, como celulares. Também nos dois casos, existe a possibilidade de interação com os espectadores, mas, na segunda hipótese, a interatividade pode ser maior. O primeiro cenário previsto pelo CPqD é aquele em que cada emissora receberá um canal digital e o usará obrigatoriamente para transmitir em alta definição, com serviços de interatividade e com as características de mobilidade e portabilidade que descrevi acima. No segundo cenário, as emissoras receberão o canal digital, mas terão o poder de definir se transmitirão em alta definição o tempo inteiro ou parcialmente, subdividindo o canal em vários de baixa resolução, fazendo uso de uma interatividade maior. A nós parece claro que o segundo cenário pode apenas ser visto como transição para o primeiro: como aconteceu na implantação da TV em cores, quando programas coloridos conviveram com outros em preto e branco, é possível que, no início, programas em alta definição convivam com programas no padrão antigo. Ver tal cenário como permanente, no entanto, é desconhecer a natureza do nosso negócio: como disse antes, em pouco tempo o espectador simplesmente se recusará a ver TV se não for em alta definição. Este é um dos erros do documento do CPqD. Mas não o mais grave. A descrição do terceiro cenário só pode ser vista como um exercício teórico sem pé na realidade. Nele, os técnicos descrevem um ambiente em que as emissoras perderiam a sua função de transmissoras e geradoras de programação, sendo reduzidas a um entre vários produtores de conteúdo. Elas seriam substituídas por operadoras de rede, que venderiam espaços de transmissão a um grupo grande de agentes: produtores de conteúdo em alta definição, produtores de conteúdo de baixa resolução, empresas de comércio eletrônico, empresas de telecomunicação que usariam o canal para comunicação inter-pessoal etc. Isso seria jogar no lixo uma indústria que, até aqui, cumpriu como poucas a sua missão: entreter e informar os brasileiros, unir o país, promover a cultura nacional e fortificar nossos valores comuns. A TV digital é mais do que bem-vinda; ela é necessária. Mas ela dever ser vista como aquilo que é: uma oportunidade e não um risco. Só assim a televisão brasileira poderá continuar a orgulhar ainda mais os brasileiros.