Título: Rondônia vê em usinas esperança de crescimento
Autor: Leila Coimbra
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Especial, p. A16
A possibilidade de construção de um complexo hidrelétrico com quatro usinas no Rio Madeira, em Rondônia, trouxe à população do Estado uma nova esperança de desenvolvimento da região, depois dos ciclos de extração da borracha, da madeira e do ouro, que não trouxeram emprego nem renda ao local. Os estudos de viabilidade técnica e econômica deste complexo hidrelétrico - batizado de Projeto Madeira, - estão sendo feitos pela estatal de energia Furnas e pela construtora Odebrecht. Mas isso não significa que as obras serão tocadas por estas empresas. O projeto terá de ser levado a leilão. Isso será possível já no próximo ano, acreditam os técnicos envolvidos nos estudos. O complexo prevê a construção de duas hidrelétricas do lado brasileiro (no Rio Madeira) uma do lado boliviano (no Rio Beni) e outra binacional (no Rio Mamoré). Além da geração de energia, o projeto possibilitará a interligação da infra-estrutura de transportes do Brasil, da Bolívia e do Peru, por hidrovia. Isto porque as quatro usinas cobrirão com água os obstáculos naturais hoje existentes nos rios e tornarão navegáveis 4.200 km nos leitos do Madeira, Mamoré e Beni, até o território peruano. As perspectivas da prefeitura de Porto Velho e do governo do Estado de Rondônia são de que o projeto venha a consolidar um pólo de desenvolvimento do agronegócio da região e do escoamento da produção pela hidrovia de maneira mais competitiva do que seu transporte por rodovias - como é feito atualmente. O projeto tornará a região mais acessível e poderá atrair a instalação de um parque industrial para o Estado, acredita o governador de Rondônia, Ivo Cassol (PSDB). Além do agronegócio, há oportunidades na área mineral, por conta das reservas de estanho da região, e a hidrovia poderá atrair um parque naval, diz ele. Para erguer apenas duas das quatro hidrelétricas, a de Santo Antônio, com 3.150 MW, e de Jirau, com 3.300 MW, ambas no município de Porto Velho, serão necessários 50 mil empregados - 25 mil em cada usina. Nos momentos de pico das obras de engenharia, este número poderá subir para 40 mil empregados em cada um dos projetos. Também é prevista a criação de 100 mil empregos indiretos nas atividades de apoio às obras. "Queremos incluir a população neste processo, ter um papel ativo. Defendo a prioridade de contratação da mão-de-obra local", diz o prefeito de Porto Velho, Roberto Sobrinho (PT). A prefeitura pretende qualificar a população para o trabalho na usina e também preparar a mão-de-obra para outros serviços que serão criados nas áreas de hotelaria, construção civil e restaurantes, por exemplo. "A nossa economia é a do contra-cheque do funcionalismo público", diz Sobrinho. A pequena sede da prefeitura abriga 7 mil funcionários. A demanda por emprego é tamanha que diariamente são formadas filas de pessoas em frente ao escritório de Furnas, na esperança de conseguir algum trabalho. A estatal pendurou no portão um imenso cartaz escrito "Não temos vagas", mas isto não foi suficiente para afastar os mais persistentes, que ainda teimam em tentar conseguir um emprego. Além do potencial de geração de emprego, os políticos estão de olho nos royalties a ser pagos pelas duas usinas nacionais (Santo Antônio e Jirau) ao município de Porto Velho, estimadas em
R$ 44, 6 milhões anuais. O valor corresponde a 30% da arrecadação total do município, de R$ 153 milhões por ano. O Estado também terá direito aos royalties, no mesmo valor que o município, de R$ 44,6 milhões anuais. Esse valor corresponde a 5% da arrecadação total do Estado, de R$ 2,6 bilhões anuais. A União também ficará com fatia de R$ 9,9 bilhões em royalties anuais. Isso sem contar o aumento da arrecadação local do imposto sobre comercialização de mercadorias e serviços (ICMS) e do imposto sobre serviços (ISS). O secretário estadual de Finanças de Rondônia, José Genaro de Andrade, vê com bons olhos os royalties, mas está mais otimista com as possibilidades econômicas que serão abertas com a hidrovia. "Poderemos exportar de maneira competitiva a produção de soja que já avança no sul de Rondônia e também poderemos absorver parte da produção do Mato Grosso, hoje transportada pelos portos da região Sudeste". A futura hidrovia Madeira-Mamoré passará a existir quando forem eliminados os 15 obstáculos naturais hoje existentes entre Porto Velho até a foz do Rio Beni, na Bolívia. Hoje, o rio Madeira é navegável de Porto Velho a Manaus. Neste trecho, comporta navios de porte oceânico. Estudos preliminares feitos por Furnas apontam um potencial de geração de riqueza - contribuição ao Produto Interno Bruto (PIB) - de US$ 2,62 bilhões por ano no Brasil e entre US$ 4,20 bilhões e US$ 6,82 bilhões anuais na Bolívia com o aumento da produção agrícola da região, estimada em 25 milhões de toneladas anuais, especialmente de soja. O aumento de geração de energia seria responsável por outros US$ 1,18 bilhão de geração de riqueza ao ao ano para o nosso país. Além disso, como as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio necessitarão, juntas, de 88 turbinas de geração de energia, número maior que a atual capacidade nacional de fabricação do equipamento, é possível que o projeto - e o potencial energético da região - atraiam para as proximidades fábricas de máquinas e turbinas de geração. Alguns dos principais fabricantes já começaram a sondar as autoridades locais como a Voith Siemens, a GE Hydro, Areva (ex-Alstom) e Va Tech. Fornecedores chineses e argentinos também já se interessaram. O comércio de Porto Velho também está animado com o projeto. O presidente da Federação do Comércio do Estado de Rondônia, Francisco Linhares, quer recuperar duas locomotivas, seis vagões e 15 km de trilhos da antiga ferrovia Madeira-Mamoré, para o turismo. Serão gastos na recuperação da estrada R$ 40 milhões.