Título: Seca afeta sete em dez colheitas no RS
Autor: Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Agronegócios, p. B8

A seca que castiga as lavouras de verão do Rio Grande do Sul é velha conhecida dos produtores gaúchos. Das últimas dez safras desde 1995/96, sete - incluída a atual - registraram quebras superiores a 2 milhões de toneladas nas culturas de milho e soja, resultando em perda acumulada de 26,1 milhões de toneladas em relação às projeções iniciais para os períodos. O levantamento foi feito por Ronaldo Matzenauer, chefe do laboratório de agrometeorologia da Fundação de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), vinculada à Secretaria da Agricultura do Estado. Segundo ele, dos dez anos agrícolas anteriores, em três (1985/86, 1987/88 e 1990/91) houve frustrações semelhantes, totalizando quebras de 11,7 milhões de toneladas. "O Rio Grande do Sul tem uma característica: sobra água no inverno e falta no verão", diz Matzenauer, que reconhece a atual estiagem como a mais severa dos últimos 60 anos. Para ele, investimentos em irrigação são a única forma de garantir alguma estabilidade. Conforme o pesquisador, mesmo em períodos com níveis normais de chuva, as precipitações no Estado não costumam passar de 150 milímetros por mês no verão, quando a demanda da soja nesta época de floração e enchimento de grãos é de 240 milímetros. Um milímetro de chuva corresponde a um litro de água por metro quadrado de área. "O Rio Grande do Sul tem boas safras em anos de El Niño, porque aí chove acima da média", diz Matzenauer. Foi assim em 1997/98, quando a safra de soja alcançou 6,6 milhões de toneladas, e em 2002/03, quando atingiu o recorde de 9,6 milhões. O fenômeno climático, segundo o pesquisador, eleva a temperatura da água no Oceano Pacífico, aumenta a evaporação e as nuvens são levadas pelas correntes atmosféricas até o Sul do Brasil. Ruim é quando ocorre a La Niña, que esfria a água do Pacífico e reduz a evaporação e a formação de nuvens. Segundo Matzenauer, há ainda os "anos neutros", sem um fenômeno nem outro, que podem resultar tanto em safras excelentes como a de 2000/01 (6,9 milhões de toneladas de soja) quanto em sofríveis como a de 1990/91. Segundo Solismar Prestes, chefe do 8º Distrito de Meteorologia do Ministério da Agricultura, para este verão inicialmente se esperava um El Niño fraco. O problema é que o fenômeno se concentrou no centro e no oeste do Pacífico e não no leste, onde contribui para a chuva no Sul. Prestes explica que a vocação do Rio Grande do Sul para longas estiagens de verão deve-se, ainda, aos bloqueios formados pelas massas de ar seco e quente que impedem a entrada de frentes frias. Segundo ele, de 1916 para cá houve 11 anos com secas mais rigorosas que a atual, tomando como base dados de Porto Alegre e região. Nos últimos 13 meses até fevereiro, o volume de chuva nesta área do Estado ficou em 1.230,7 milímetros, 354,9 milímetros abaixo da média histórica, mas bem acima da crítica estiagem de janeiro de 1917 a fevereiro de 1918 (785,3 milímetros). Nos períodos entre a primavera e o verão, porém, a seca atual é a quinta pior da história. Para os próximos meses, a tendência é que o volume de chuva no Rio Grande do Sul retome aos padrões históricos, adianta Solismar Prestes. O problema é que, para suprir o déficit hídrico acumulado desde dezembro passado, seriam necessárias precipitações bem acima da média - e, mesmo que isto ocorresse, as perdas das lavouras de verão já são irreversíveis. (SB)