Título: Conab confirma perdas, que poderão ser ainda maiores
Autor: Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Agronegócios, p. B8

Falta de chuva na hora certa e o plantio mais tardio da soja levaram a safra 2004/05 à maior quebra da história: 12,42 milhões de toneladas da projeção inicial para os grãos foram perdidas em razão da seca nos Estados do Sul, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo. A Conab divulgou ontem levantamento extraordinário que aponta uma produção brasileira de 119,49 milhões de toneladas nesta safra, mesmo patamar de 2003/04 (119,152 milhões). Fontes do Ministério da Agricultura calculam, porém, uma quebra ainda maior, capaz de reduzir a colheita em curso a 116 milhões de toneladas. Isso porque poderá haver recuo na produção da segunda safra de milho no Sul, já que o prazo ideal para o plantio expirou na semana passada e o risco de perda é maior a cada dia. A Conab prevê uma queda de apenas 8% na safrinha de milho. "É uma estimativa conservadora", diz o presidente Jacinto Ferreira. "A safra pode sofrer redução maior que esta, dependendo da manutenção da condição climática atual", concordou, em São Paulo, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. A nova previsão da Conab significa queda de 9,4% sobre o levantamento feito em dezembro, que indicava safra de 131,92 milhões de toneladas. Em fevereiro, a Conab já havia reduzido a estimativa para 123,4 milhões de toneladas. Os maiores estragos da seca foram sentidos no Rio Grande do Sul. A Conab estima uma quebra de 38% no milho e de 45% na soja. A produtividade, principal fator para analisar a safra, caiu 36% no milho e 46,5% na soja. Os produtores gaúchos, que antes produziriam 2,25 mil quilos de soja por hectare, colherão 750. No milho, conforme a Conab, a produtividade caiu de 3,75 mil quilos por hectare para 1,72 mil. O Paraná perdeu 7,3% da safra de milho, mas aumentará a colheita de soja em 5,7%. Apesar de concentrada no Sul, a estiagem também comprometeu outros Estados. Ainda assim, a produção de soja, mesmo com as revisões, apresenta aumento de 6,7% sobre 2003/04. Agora, devem ser colhidas 53,12 milhões de toneladas, 8,29 milhões de toneladas a menos que o estimado pela Conab em dezembro (61,40 milhões). Em fevereiro, a produção de soja estava prevista em 57,028 milhões. Os números mostram que a primeira safra de milho teve uma quebra global de 7,3% sobre 2003/04, para 29,31 milhões de toneladas. Se comparada à previsão de dezembro, a queda chega a 10%. Assim, o país devem colher 3,26 milhões de toneladas a menos do que o previsto em dezembro. "O setor de carnes deve sentir os efeitos dessa quebra", disse Silvio Porto, diretor de logística da Conab. A quebra no feijão também será forte. A Conab estima uma queda de 224,2 mil toneladas (7,3%) sobre a previsão de dezembro. Por outro lado, o algodão apresentou um crescimento de 91,4 mil toneladas (4,3%) na comparação com a estimativa de dezembro, para 2,23 milhões de toneladas de pluma. Também segue no foco das preocupações do ministro Rodrigues os efeitos da estiagem e do endividamento dos produtores na safra 2005/06. Nos próximos dias, o ministério recebe da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) um estudo sobre as demandas do setor para a próxima temporada. Desde a semana passada, o ministro faz uma "rodada de conversações" com o setor de insumos agrícolas para avaliar as perdas sofridas em função da estiagem, o atual nível de endividamento dos setores e as perspectivas para a próxima safra. Na semana passada, houve reuniões com as cadeias de fertilizantes e máquinas. Ontem, em São Paulo, Rodrigues reuniu-se com representantes do setor de defensivos. Segundo o ministro, o foco das preocupações está nas regiões afetadas pela seca. "Para essas regiões tem que haver algum tipo de ação caso a caso, sobretudo para as cooperativas, que têm sido grandes repassadores do setor em geral". Rodrigues reiterou que negocia a liberação de novos recursos ainda para esta safra - R$ 1 bilhão para viabilizar as aquisições do governo federal (AGF), leilões de PEP e contratos de opções. "E estou pedindo R$ 300 milhões para criar dispositivos de ajuda às cooperativas. Estou confiante que vamos conseguir para esta safra".