Título: Brasil fica fora de bloco anti-Wolfowitz
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2005, Finanças, p. C3
Indicado pelo governo dos Estados Unidos para presidir o Banco Mundial (Bird), o vice-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz, identificado com a "linha-dura" do governo George W. Bush, com o antimultilateralismo e incentivador da guerra ao Iraque, passou com habilidade em um primeiro teste político: um encontro, na segunda-feira, no Bird, com 12 representantes dos governos de países em desenvolvimento representados na diretoria da instituição. Wolfowitz, segundo relatos dos representantes a seus governos, mostrou estar bem informado sobre os assuntos mais delicados e, quando não deu respostas que agradavam, soube escapar com diplomacia de temas polêmicos. O desempenho do americano só reforçou a decisão do governo brasileiro, de não participar de nenhum movimento para barrar a indicação de Bush. Em vez disso, a equipe econômica negocia com o próprio Wolfowitz a manutenção de decisões do atual presidente do Bird, James Wolfensohn, favoráveis ao aumento de desembolsos para o Brasil. Para diminuir os fluxos negativos na relação com o banco (o Brasil pagou, por empréstimos antigos, US$ 116 milhões a mais ao Bird do que recebeu em 2004), o país negocia empréstimos de até US$ 2 bilhões este ano. No governo americano, uma forte corrente defende que o Bird deixe de fazer empréstimos aos chamados países de renda média, como Brasil e Argentina, dois dos maiores clientes habituais da instituição. Ao lhe perguntarem o que achava sobre essa discussão, Wolfowitz afirmou que a prioridade, para o Banco Mundial, deve ser para os países pobres da África, mas que isso não significa deixar em segundo plano "outras prioridades", e que se sabe muito bem que a maior parte da população pobre do planeta está exatamente nesses países de renda média (como Brasil e Índia, que Wolfowitz, delicadamente, não citou). Ao lhe perguntarem o que acha do chamado consenso de Washington (a combinação de políticas identificada com a ortodoxia econômica e com modelos liberais como o do Chile e da Argentina de Carlos Menem) , o indicado de Bush afirmou ser "pragmático" e saber que cada país no mundo é um caso particular com suas próprias peculiaridades. Quando quiseram saber o que pensava da redução das verbas do banco para projetos de infra-estrutura, disse ter se surpreendido ao descobrir essa redução, e que os tsunami da Ásia haviam mostrado a ele como investimentos no setor são importantes para o combate à pobreza. Apesar do desempenho de burocrata inteligente e bem treinado mostrado por Wolfowitz, causou impacto em Brasília a avaliação feita pelo ex-economista-chefe do Banco Mundial, Joseph Stiglitz, para quem a indicação de Wolfowitz representa uma tentativa do governo Bush de esvaziar o caráter multilateral da instituição e priorizar programas vinculados à guerra contra o terrorismo, como os projetos de reconstrução do Iraque e do Afeganistão. Ninguém em Brasília acredita que o novo presidente do banco possa provocar mudanças dramáticas em seu modo de operação (fracassaram tentativas nesse sentido, do atual presidente, James Wolfensohn, no início do mandato), mas pelo menos um importante economista do governo teme que a nova administração torne mais difícil a discussão, em curso no Banco Mundial, para maior ênfase a ações de combate à pobreza, distribuição de renda e apoio a políticas sociais. A nomeação de um dos ideólogos da política americana de guerra preventiva contra países rebeldes contribuiu para aumentar, no governo brasileiro, o interesse no resultado da próxima reunião da diretoria do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a se realizar em abril, no Japão. A reunião se dedicará a discutir uma nova política de intervenção, com maior ênfase a programas sociais já existentes e a empréstimos diretos ao setor privado pelo BID - que, com o Banco Mundial, é um grande fornecedor de empréstimos externos a custos mais baixos para o Brasil.