Título: Agronegócio muda de opinião e apóia proposta dos EUA na OMC
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 28/03/2005, Brasil, p. A2

Depois de uma reação inicial desfavorável, a proposta americana de acordos setoriais para produtos agrícolas está ganhando o apoio do setor privado brasileiro. "Não tem cabimento haver acordo setorial na indústria e não na agricultura", diz Marcos Sawaya Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), entidade financiada por associações agrícolas. Para o especialista, os acordos setoriais, nos quais são eliminadas as tarifas de importação, podem significar um ganho maior do que as negociações no âmbito da Rodada Doha da Organização Mundial de Comércio (OMC). "Tudo indica que a liberalização tende a ser tímida em acesso a mercados na OMC", diz Jank, referindo-se ao jargão diplomático para cortes de tarifas, um dos pilares da negociação de agricultura ao lado de subsídios e apoio interno. É longa a lista de países que têm dificuldade para reduzir tarifas e ela inclui pesos pesados como Estados Unidos, União Européia, China e Índia. Os africanos também são contra, porque temem perder suas preferências nos países ricos. Jank avalia que a primeira demanda brasileira deveria ser um acordo setorial para óleos vegetais. Principal produto da pauta de exportação brasileira, a soja enfrenta escaladas tarifárias em diversos países - ou seja, muitos importadores cobram taxas menores para o grão do que para o óleo, desestimulando o esmagamento no país exportador. O presidente do Icone também acredita que o Brasil deve perseguir acordos setoriais para carnes e etanol, já que é praticamente impossível conseguir alguma abertura em açúcar. Na proposta levada ao comitê de agricultura da OMC, os americanos propuseram acordos setoriais para carne bovina, suína, frango, cevada, frutos e vegetais, alguns produtos processados, destilados, sementes para a produção de óleo (como algodão) e soro de leite. Os EUA, obviamente, deixaram de fora setores sensíveis para o país como suco de laranja. Tradicionalmente, o Brasil é contra a negociação de acordos setoriais por conta dos prejuízos possíveis para os setores menos competitivos da indústria. A diplomacia brasileira tenta evitar que esse tema se imponha na Rodada Doha. Para Jank, essa discussão já é "inevitável". Apesar de defender o multilateralismo, ele adverte que os países estão apostando em acordos bilaterais ou setoriais e que o Brasil não pode ficar de fora. Pegos de surpresa com a postura americana, especialistas do setor agrícola afirmaram que a idéia nascia "praticamente morta" por conta da resistência da UE e do Japão. Jank conta que o setor, depois de uma discussão mais aprofundada, está mudando sua posição.