Título: Inclusão digital, vitórias e desafios
Autor: Emilio Umeoka
Fonte: Valor Econômico, 24/03/2005, Empresas &, p. B2

A magnitude e a abrangência dos problemas enfrentados por boa parte dos habitantes de todo o mundo exigem ações urgentes dos países, especialmente aqueles em desenvolvimento. Obviamente, não existe fórmula mágica, mas entre os diversos meios de se endereçar a questão, um tem ganhado importância nos últimos anos. Trata-se dos esforços pela disseminação das tecnologias da informação e da comunicação, com o objetivo de obter uma maior inclusão digital e, conseqüentemente, melhoria das condições sociais. Oferecer acesso, dar treinamento e estimular o uso de computadores e outros equipamentos são fatores que vão ajudar a garantir o desenvolvimento das nações do futuro. Ao promover a inclusão digital, os países incentivam a inovação em toda a cadeia econômica e garantem o aumento de produtividade e competitividade das suas companhias. Também apóiam o aperfeiçoamento das condições de ensino e aprendizado em todos os níveis. Os benefícios atingem ainda as pequenas e médias empresas, que passam a ter maiores condições de competir com as grandes corporações. A situação no Brasil é complexa, mas ao mesmo tempo animadora. O Índice de Difusão das Tecnologias da Informação e da Comunicação, formulado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), mostra que estamos longe do ideal, mas temos apresentado uma elevação de nossos indicadores. No período de 1995 a 2002, saltamos do 78º lugar para o 57º posto entre os países com melhor uso dos recursos de TI e telecomunicações. Levando-se em conta que nos encontramos no 72º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, pode-se concluir que o segmento de TI está à frente do desempenho geral - o que é positivo, pois garante que a tecnologia estará disponível e poderá ajudar na reversão desses números. Somos hoje a maior comunidade de internet da América Latina, com 14,3 milhões de usuários - um crescimento de 186% de 2000 para 2003 - e estamos entre os principais utilizadores da rede entre as nações em desenvolvimento. Esses países já representam 36% da população mundial da internet e respondem por 75% da taxa de crescimento global, deixando claro que a distância entre os dois blocos tende a diminuir. Outro índice positivo diz respeito aos recursos de telefonia. Em dez anos, o acesso às telecomunicações foi triplicado nos países em desenvolvimento - e o Brasil se destacou substancialmente nesse cenário, principalmente com o salto das operações celulares, que hoje já ultrapassam 66 milhões de terminais. Quando deixamos a abrangência dos números estatísticos e olhamos em mais detalhes alguns exemplos concretos contra a exclusão no Brasil, vemos também razões para otimismo. O Comitê para Democratização da Informática (CDI), por exemplo, tem sido reconhecido, premiado e usado como exemplo no exterior. Mais de 600 mil jovens já foram beneficiados pela instituição, que conseguiu de maneira única manter um forte laço com as comunidades onde atua, ao mesmo tempo em que se alia ao empresariado para obter recursos técnicos e financeiros.

6,5 milhões de brasileiros serão beneficiados

Por meio da Fundação Bradesco, associações comunitárias passaram a abrigar também modernos Centros de Inclusão Digital, nos quais jovens e adultos aprendem a dominar o computador e a usá-lo em prol de suas necessidades cotidianas. Organizações não-governamentais como Sampa.org e Cemina, ampliam o poder da comunicação ao aliar telecentros a rádios comunitárias para criar redes de discussão de problemas sociais e oferecer capacitação às populações carentes. O uso inovador de tecnologia como recurso de melhoria da aprendizagem tem sido amplamente apoiado pelo Instituto Ayrton Senna desde 1999. É um dos fatores de sucesso de diversas escolas que fazem parte do programa Sua Escola a 2000 por Hora. Além disso, secretarias estaduais de educação, como as dos governos de Goiás, Paraíba, Pernambuco e São Paulo também já desenvolvem projetos de capacitação de professores e alunos, que têm promovido a inclusão digital, com o uso das tecnologias da informação e da comunicação. Somando-se apenas os esforços das iniciativas aqui mencionadas, 6,5 milhões de brasileiros receberão treinamento e passarão a utilizar a tecnologia para melhorar suas condições de vida até o fim desta década. Em resumo, os avanços têm sido significativos. Ao comemorar nesta semana mais um Dia da Inclusão Digital, os cidadãos brasileiros podem ficar orgulhosos de tudo o que já foi construído até aqui. Mas, ao mesmo tempo, precisam ter a consciência de que há um longo caminho pela frente. E que será necessária a união de todos - comunidade, governos, iniciativa privada e ONGs - para garantir um futuro de oportunidades iguais para todos. Emilio Umeoka é presidente da Microsoft Brasil