Título: Palocci e Bevilaqua descartam riscos
Autor: Alex Ribeiro e Mônica Izaguirre
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2005, Finanças, p. C1

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Afonso Bevilaqua, considera que atualmente o Brasil está menos vulnerável a uma eventual crise internacional do que no passado recente, por isso pôde abrir mão de renovar o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ele informou que, desde que voltou a comprar dólares, em dezembro, as aquisições acumuladas da autoridade monetária para reforçar as reservas internacionais chegaram a US$ 12,867 bilhões. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, acredita que o Brasil passará "muitos e muitos anos" sem ter necessidade de recorrer novamente ao FMI. A afirmação foi feita aos integrantes da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, durante audiência pública na qual ele traçou um quadro favorável da economia. Bevilaqua, que ontem apresentou o relatório de inflação de março, reconhece que, desde dezembro passado, o quadro externo se tornou um pouco mais volátil, devido a incertezas sobre juros americanos e evolução de preços de petróleo. "O mundo continua a ser um lugar repleto de riscos, mas hoje estamos em uma situação mais favorável para enfrentá-los", disse Bevilaqua, ponderando que o BC atribui baixa probabilidade a um cenário de deterioração significativa nos mercados financeiros internacionais em função de alta de juros americanos. Na crise das eleições de 2002, disse Bevilaqua, a liquidez internacional ao Brasil se contraiu em US$ 30 bilhões, com efeitos agudos sobre a taxa de câmbio, que bateu em R$ 4. Hoje, disse, uma hipotética restrição da mesma magnitude teria um efeito bem menor sobre o câmbio, porque as necessidades de financiamento são menores. O país saiu de um déficit em conta corrente próximo de 5% do PIB, lembrou, para um superávit de 2% do PIB, e o endividamento externo caiu nos últimos anos. E as reservas estão hoje em um nível mais favorável. A dívida líquida do setor público seria menos afetada por um choque externo, acrescentou, porque foi reduzida a parcela indexada ao câmbio. Ele reconhece que, na comparação com outros países emergentes, o Brasil ainda não exibe os melhores indicadores de solvência externa. "O que conta é a comparação do Brasil com o Brasil", argumentou. "Temos indicadores bem melhores, por isso seríamos menos afetados." Palocci também defendeu a tese de que a melhora vista em todos os indicadores de vulnerabilidade nos últimos dois anos já permite ao país enfrentar eventuais novos choques externos sem a ajuda do FMI. O ministro esclareceu, por outro lado, que o atual governo não terá resistência em voltar a recorrer ao FMI, caso suas previsões favoráveis não se confirmem e seja necessário um novo acordo. O ministro acredita que o FMI tampouco deixaria de ajudar o país na hipótese de uma reversão do atual quadro econômico. "Se o Brasil precisar de algum nível de apoio, tenho certeza de que as portas do FMI estarão abertas", afirmou ele aos senadores. Respondendo a uma preocupação do líder do PSDB no Senado, senador Arthur Virgílio, Palocci também deixou claro que o fim do acordo não implicará relaxamento da política fiscal. Ao responder a outro questionamento, Palocci disse que a decisão de encerrar o acordo com o FMI, anunciada formalmente anteontem, "foi tomada em setembro de 2003", quando o governo prorrogou o programa com o Fundo em caráter preventivo. O acordo só seria renovado mais uma vez caso as previsões favoráveis do governo na época não tivessem se confirmado.