Título: O que é ser socialmente responsável?
Autor: Daniele Camba
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2005, EU &, p. D1

A próxima semana será decisiva para o destino do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) que, antes mesmo de sair do forno, está provocando uma verdadeira batalha entre Bovespa, ONGs, entidades do mercado de capitais e despertando a ira de várias companhias abertas. Nos dias 6 e 7 de abril, o conselho que está definindo os critérios de formação do referencial se reunirá para votar o principal ponto de discórdia: se exclui ou não do indicador empresas fabricantes de produtos vistos como prejudiciais à saúde, como bebidas, caso da AmBev, fumo, como a Souza Cruz, e armas de fogo, como Forjas Taurus. A alternativa, que agrada as empresas, seria mantê-las no índice, mas com peso diferenciado de acordo com um questionário sobre sustentabilidade. Segundo fontes ligadas ao conselho, esta será a terceira votação sobre o mesmo assunto. As duas anteriores, que decidiram pela exclusão, foram canceladas sob a alegação de que o conselho e suas regras ainda não estavam definidos formalmente, o que poderia abrir espaço para contestações legais, especialmente por parte das empresas que ficariam de fora da carteira. Extra-oficialmente, o que se comenta é que houve forte pressão de companhias que seriam excluídas para derrubar as votações. O ponto principal da polêmica é que algumas empresas não aceitam ficar de fora do índice e temem o impacto negativo sobre seus papéis e sua imagem. Elas argumentam que são companhias legalmente instaladas no país, geram milhares de empregos, pagam impostos e possuem programas exemplares de responsabilidade social. As empresas alegam que seria injusto, de largada, serem excluídas do indicador simplesmente por estarem em setores vistos por alguns como não socialmente responsáveis. Na opinião de quem é a favor da exclusão, porém, é contraditório ter em um referencial de instituições socialmente responsáveis empresas que fabricam produtos que, segundo eles, não seriam sustentáveis no longo prazo. O assunto é tão relevante que está sendo discutido até pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A instituição, porém, prefere ainda não se manifestar sobre o assunto, já que até agora não recebeu nenhuma informação oficial sobre a carteira. Já a Bovespa criou uma comissão para analisar a questão depois de receber uma carta de protesto da Abrasca, que reúne as companhias abertas, como informou o Valor dia 16. O conselho que está definindo os critérios do índice é formado por nove entidades. Algumas do mercado financeiro, como as associações dos fundos de pensão (Abrapp), dos fundos de investimento (Anbid), dos analistas de mercado (Apimec) e a própria Bovespa. Há ainda outras de fora do mercado, ligadas ao tema responsabilidade social, como IBase e Ethos. Segundo fontes envolvidas no conselho, na primeira votação, cinco entidades votaram a favor da exclusão, uma contra e outra preferiu se abster. O assunto foi votado novamente a pedido de duas entidades - uma que teria votado a favor da exclusão, mas depois reviu a posição, e outra que não participou da primeira votação. O tema então voltou a ser votado e mais uma vez venceu a exclusão. O que se espera é que esta seja a terceira e última votação. Empresas que ficariam fora do índice no caso de ser aprovada a exclusão estão se movimentando para mudar a decisão. A Souza Cruz, por exemplo, já se reuniu com representantes da Bovespa, de algumas entidades e com a própria Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) - que está montando a metodologia do indicador - para apresentar seus argumentos contrários à exclusão. Além de todos os programas de responsabilidade social que desenvolve, a empresa apresenta um dos maiores retornos ao acionista nos últimos dez anos, o que comprova sua sustentabilidade financeira, afirma o diretor de relações com investidores, Dante João Letti. "Se o índice excluir setores estará tirando o direito de o investidor decidir o que é socialmente responsável", diz. Ele está preocupado também com a possibilidade de o ISE se tornar obrigatório para fundos de pensão. "Quem perde são as fundações, que deixarão de investir em empresas altamente rentáveis". Mas, segundo o diretor da Abrapp, Antonio Cruz, está fora de cogitação tornar o índice obrigatório. A AmBev também está se mobilizando. A pedido da cervejaria, o gerente de Responsabilidade Corporativa da companhia, Luiz Eduardo do Amaral Osório, e o diretor do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Eric Altit, visitaram as entidades que fazem parte do conselho do índice. O argumento da AmBev é que o ISE precisa seguir critérios objetivos, como um questionário sobre sustentabilidade social, ambiental e financeira, e não subjetivos, definidos pelo conselho. "Um índice subjetivo já nasce sem credibilidade", diz Osório. Ele reforça o argumento com exemplos internacionais. O Dow Jones Sustainability - um dos principais índices do gênero - não exclui nenhuma empresa. Entram no índice um percentual de 10% das companhias de cada setor com as melhores pontuações dentro de um questionário. Dentro do conselho do índice, há quem esteja do lado das companhias. É o caso da Apimec e da Abrapp. O argumento da Apimec é que todos os setores listados na bolsa são legais e, portanto, devem ter a possibilidade de participar do indicador. A Abrapp defende a seleção das empresas via questionário, com pesos diferentes para setores como bebidas e cigarro. Outras entidades, como Ethos e Anbid, ainda não firmaram posição, mas simpatizam com a idéia de seleção apenas via questionário. Entre os que defendem a exclusão está o IBase. Segundo João Sucupira, diretor da entidade, pelo produto que fabricam, algumas empresas são intrinsecamente contrárias aos princípios de sustentabilidade. Ele dá o exemplo de um traficante de drogas, "que pode ajudar a comunidade, mas não deixa de ser traficante." O presidente do CEBDS, Fernando Almeida, teme que a exclusão arranhe a imagem das empresas. Ele diz que em nenhum momento o CEBDS foi convidado para fazer parte do conselho. "Se as entidades não tiverem experiência no assunto (sustentabilidade) corre-se o risco do índice ser uma aberração."