Título: BNDES defende manutenção do crédito direcionado
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 29/03/2005, Brasil, p. A6
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Guido Mantega, defendeu ontem enfaticamente o modelo de crédito direcionado adotado no país, por permitir, segundo ele, que as empresas brasileiras tenham acesso a crédito a taxas mais baixas. Participando do seminário "O Futuro das Pequenas e Médias Empresas no Brasil", promovido pelo Valor, com patrocínio do BNDES e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mantega rechaçou a idéia de transferir o dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), a principal fonte de recursos do BNDES, para os bancos privados, proposta de economistas como Pérsio Arida. Segundo Mantega, o BNDES empresta a juros médios de 14% a 15% ao ano. Essa taxa tenderia a subir para a casa de 28% a 30%, afirmou ele, se as instituições financeiras privadas abocanhassem os recursos do FAT, que têm como custo a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), atualmente em 9,75% ao ano. "Nós não podemos permitir que haja essa manobra que alguns grupos gostariam de levar adiante, de tirar o FAT do BNDES e colocá-lo nas mãos do setor privado", disse ele. "Acho fundamental que se mantenha o crédito direcionado." Mantega lembrou que o modelo possibilita, por exemplo, o financiamento à agricultura a taxas que variam entre 6% e 8,75% ao ano. Em sua palestra, ele aproveitou para ironizar os que "têm medo do crescimento", avaliando que o atual ritmo de expansão da economia é sustentável devido ao aumento do investimento. De acordo com Mantega, a proposta de deixar os recursos do FAT com os bancos privados vem de "setores que acham que deve prevalecer o liberalismo econômico, que cada um deve se virar". "Isso seria um retrocesso", afirmou Mantega, acrescentando que "pequenas e médias empresas dependem de políticas públicas, de política industrial, de política agrícola e de política de comércio exterior". "Mas há gente que é contra, que acha que se devem deixar essas empresas à mercê dos spreads que são cobrados pelos bancos comerciais." Para Mantega, se tivessem acesso aos recursos do FAT, os bancos privados apenas "agradeceriam" a fonte de financiamento a um custo de 9,75% e colocariam o "spread tradicional em cima, de 17%, 18%, 20%". Há alguém no governo que defende essa proposta? Mantega disse que não. "Não há ninguém que eu conheça dentro do governo que queira acabar com o crédito direcionado. Pode haver divergência quanto ao nível dos juros, mas não quanto à natureza do crédito direcionado." Em fevereiro, o secretário do Tesouro, Joaquim Levy, sugeriu que a TJLP acompanhasse os movimentos da Selic, mas não foi ouvido. Na semana passada, o Conselho Monetário Nacional manteve a TJLP em 9,75%, apesar de a Selic ter subido de 16% para 19,25% desde setembro. Mantega não se mostrou preocupado com o impacto da alta da Selic sobre a atividade econômica. O mercado de crédito, afirmou ele, continua a se expandir. Ele ressaltou a importância de novas modalidades de financiamento nesse processo, como o crédito com desconto em folha de pagamento, que tem taxas mais baixas. Mantega disse que o crédito ao varejo manteve um bom desempenho em janeiro e fevereiro, quando normalmente há uma retração, o que mostra o ritmo significativo da atividade econômica. "Isso já começa a preocupar algumas pessoas", ironizou Mantega. "Tem gente que acha que o Brasil só funciona a taxas mais baixas, em marcha lenta, que o mercado consumidor não pode crescer porque isso gera inflação." Para ele, essa visão está equivocada. "Houve crescimento do consumo, mas também do investimento. Com oferta e demanda se equilibrando, não vai haver aumento de preços", afirmou ele. E o Banco Central (BC), que elevou os juros desde setembro, tem medo do crescimento? "Acho que não. O BC só tem medo da inflação, e não do crescimento. Não há ações do governo para diminuir a atividade econômica, mas um combate pontual à inflação", afirmou ele, lembrando que o crédito ao consumo aumentou 20% nos últimos dois ou três meses.