Título: Surgem novas ameaças de inflação no horizonte
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 29/03/2005, Opinião, p. A12
O Comitê de Política Monetária sinalizou na ata de sua última reunião que as condições estão dadas para que se interrompa o ciclo de alta dos juros. Durante meses, o BC foi criticado por ver ameaças inflacionárias inexistentes ou exageradas enquanto não hesitava em elevar a taxa Selic para atingir uma meta considerada unanimemente como irrealista. O BC acha que a elevação do custo do dinheiro já fez o seu serviço, mas agora surgem novos perigos no horizonte dos preços. A probabilidade de descumprimento do teto das metas é ainda pequena, mas não desprezível, e pode provocar a manutenção de juros desnecessariamente altos por um lapso de tempo maior do que o previsto. Pelo lado da oferta, as ameaças vêm da quebra significativa da safra na região Sul, com estragos consideráveis para o milho e a soja, dois importantes insumos para a alimentação animal, e prejuízos menores em outras culturas, como o arroz e o feijão. As altas recentes dos produtos agrícolas no atacado, captadas pelo IGP-DI, ainda não refletem as consequências da estiagem. A intensidade com que seus efeitos atingirão os índices dá margem a especulações e dúvidas. A safra de soja, apesar da perda de 6 milhões de toneladas no Rio Grande do Sul, deverá se manter estável, em torno de 119 milhões de toneladas. A situação do suprimento é mais apertada para o milho, para o qual o governo tem algum estoque, e dependerá da safrinha. Os preços internacionais dessas commodities, que se refletem nos preços domésticos, estão em recuperação, o que faz prever alguma elevação na entressafra. Como tendência, porém, os preços dos alimentos vinham jogando para baixo a inflação. A variação dos produtos não-duráveis no IPCA, que serve de parâmetro para o sistema de metas, nos 12 meses encerrados em fevereiro foi de 4,72%, muito abaixo do salto dado pelos bens duráveis, de 8,38% e dos semi-duráveis, de 11,27%. Esse contrapeso deve se desvanecer. Os preços do petróleo preocupam mais e têm um poder maior de disseminação altista nos índices. A média de variação do óleo caminha para ser a maior desde pelo menos 1999 e atingir valores acima dos US$ 40 o barril, jogando mais lenha da valorização dos bens que o utilizam como insumo, como resinas plásticas, fertilizantes etc. No quadro atual de oferta e demanda, muito estreito, fatores baixistas só poderiam advir de um improvável aumento significativo da produção ou de um duvidoso desaquecimento da demanda nos grandes países consumidores, provocado pelos preços altos. Os sinais, entretanto, vão até agora em outra direção. A economia dos EUA e China, primeiro e segundo maiores consumidores, não dão mostras de arrefecimento e a alta do petróleo está se refletindo antes de tudo em elevação gradual dos níveis de inflação. E este é outro risco, bem mais grave que os outros, para a saúde da economia brasileira. Seu efeito final seria uma mudança dos fluxos de capital para fora dos países emergentes, com valorização do dólar e seu reflexo altista nos preços internos. O Fed, o BC dos EUA, começou a mudar o tom de sua ata e alertar para os perigos inflacionários, o que o levaria, em algum momento no futuro, a acelerar a elevação dos juros. O BC brasileiro acredita que esse cenário ainda é pouco provável, mas há quem o veja como inevitável. Além da pressão do petróleo, os custos unitários de mão-de-obra americana voltaram a subir - 2,4% anuais - nos últimos três trimestres, a maior evolução dos últimos quatro anos. A economia está crescendo a uma velocidade acima de 4% ao ano e, neste ritmo, o grau de utilização da capacidade de produção chegará no início de 2006 próximo do ponto em que costumam ocorrer problemas de oferta e pressões inflacionárias, avalia o semanário americano "BusinessWeek". A elevação abrupta dos juros de 10 anos, até então inertes, mostram que uma política menos acomodatícia pode estar a caminho - para alguns analistas, ela já viria tarde demais. Nada garante que essas tendências prevaleçam com aguda intensidade ao longo do ano, embora a probabilidade de que choques de preços de commodities agravados por uma variação para cima do dólar em relação ao real seja hoje bem mais alta que no passado. A redução sensível da vulnerabilidade externa e a relativa diminuição do fôlego de crescimento da economia são anteparos importantes a essas ameaças. Mas elas indicam que as chances para se ter juros decentes já ficaram para trás e que o país provavelmente terá de conviver com taxas amargas por um bom período.