Título: Fundos diminuem aposta no mercado agrícola de NY
Autor: Mônica Scaramuzzo
Fonte: Valor Econômico, 01/04/2005, Agronegócios, p. B10

O movimento dos fundos de investimentos foi determinante para o comportamento das cotações das principais commodities agrícolas no mercado internacional em março. Aliados aos fundamentos de oferta e demanda global, notícias macroeconômicas, sobretudo dos EUA, guiaram as tacadas dos fundos e, consequentemente, o sobe-e-desce dos preços, principalmente na bolsa de Nova York. Naquele mercado, os fundos debandaram a partir de meados de março, tirando parte da sustentação dos contratos de açúcar e café, que, entretanto, seguem em elevado patamar. Na bolsa de Chicago, o efeito é oposto. Os fundos, que estavam com baixos volumes de posições compradas desde janeiro, voltaram a dar suporte às cotações da soja e outros grãos a partir do momento em que os fundamentos "viraram" com a quebra da safra brasileira. Por conta da estiagem no Sul, o IBGE reduziu sua estimativa para a produção de grãos no país nesta safra 2004/05 para 120,951 milhões de toneladas no total, ante as 134,522 milhões previstas em janeiro e as 119,085 milhões da temporada 2003/04. Michael McDougall, diretor da Fimat Futures para América Latina, disse que parte dos fundos, sobretudo os "manager futures", que concentram investimentos em contratos futuros e têm caráter mais especulativo, começou a migrar suas posições das commodities agrícolas para outros ativos depois do discurso inflacionário do governo americano. No dia 22 de março, o Fed (o banco central americano) anunciou aumento da taxa básica de juros do país de 2,5% para 2,75% para conter a inflação. A expectativa é de que os juros voltem a subir. A decisão do governo americano também ajudou a dar um fôlego ao dólar, que registrou ligeira valorização sobre o euro. O impacto dessas decisões macroeconômicas sobre as commodities agrícolas teve reflexo mais baixista na bolsa de Nova York, que registrava desde o início do ano forte participação dos fundos. "Os fundos têm tendência de migrar para mercados com perspectivas de ganhos maiores, o que pode provocar aumento ou baixas exageradas", observou Rodrigo Corrêa Costa, operador da Fimat. No café, os fundos estavam posicionados em cerca de 48 mil lotes comprados no início de março. Ontem (dia 31), essa posição estava em cerca de 30 mil lotes, volume que não é considerado pequeno, informou Costa. A volatilidade no mês foi grande para os preços dos contratos de segunda posição, que chegaram a bater US$ 1,4045 por libra-peso e a recuar até US$ 1,2360 por libra-peso no mesmo mês. "Os fundamentos de mercado para café continuam altistas, por conta do cenário deficitário no mercado internacional", disse. No açúcar, a fuga dos fundos foi maior. No início do mês, eles estavam comprados em quase 105 mil lotes e ontem estavam em torno de 57 mil lotes. Fernando Martins, da Fimat, disse que há duas semanas os fundos estavam posicionados em cerca de 84 mil lotes. Com a saída dos fundos, os preços cederam, atingindo a mínima de 8,75 centavos no dia 30. No mês, fechou com baixa de 2,83%, a primeira do ano. "Há notícias de recuperação da safra da Índia e de supersafra de cana no Brasil, mas as notícias altistas prevalecem". No algodão, cacau e suco, a participação dos fundos é proporcionalmente menor. No suco, os fundamentos indicam menor oferta, com a redução da safra americana de laranja. Os preços médios dos contrato de segunda posição fecharam em alta de 11,58% sobre fevereiro. Para o algodão, os fundos aumentaram sua posição comprada, para quase 37 mil lotes, sustentados pelas exportações dos EUA. As cotações médias subiram 13,25% sobre fevereiro. Na bolsa de Chicago, o movimento dos fundos é de retorno às posições compradas. No final de fevereiro, os fundos estavam vendidos em suas posições para grãos. "Os fundos já tinham saído dos grãos no início do ano por conta das notícias que indicavam uma supersafra americana para os grãos", afirmou McDougall. No início de março, os fundos estavam com posições vendidas para soja, milho e trigo. Durante o mês de março, os fundos retomaram posições nos grãos. "Há alguns fatores, como a quebra da safra na América do Sul e a potencial demanda por parte da China, que ajudam a dar sustentação aos preços", destacou. Em março, os contratos de segunda posição para soja fecharam com valorização de 18,5% sobre a média de preços do mês anterior. As cotações do grão chegaram a atingir a máxima de US$ 6,8475 o bushel no mês passado, com oscilação no patamar de US$ 6 o bushel. Em 30 dias, os fundos saíram de uma posição vendida em cerca de 42 mil lotes para uma posição comprada de 15 mil. No milho, a valorização do mês foi de 6,3% sobre o mês anterior. A posição vendida dos fundos estava em torno de 66,3 mil lotes no final de fevereiro para 33 mil lotes no final de março. A demanda por milho para produção de álcool nos EUA cresce, o que tem ajudado a dar suporte aos preços do grão no mercado americano. Para trigo, os fundos estavam vendidos em 2,2 mil contratos no fim de fevereiro e estavam ontem comprados em torno de 14 mil lotes, disse Flávia Moura, da Fimat.