Título: Países árabes estão ficando para trás na globalização
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 04/04/2005, Internacional, p. A11
O mundo árabe está vivendo uma bomba-relógio populacional e precisa urgentemente de reformas políticas, do sistema educacional e das regras culturais que mantêm as mulheres fora do mercado de trabalho, caso contrário a região será eclipsada por economias mais dinâmicas, como da Índia e da China, afirma o Fórum Econômico Mundial. O Relatório de Competitividade do Mundo Árabe, divulgado neste fim de semana após uma conferência do FEM no Qatar sobre a economia dos países da região, não tem uma visão totalmente negativa. Ele ressalta que há países competitivos, como por exemplo o próprio Qatar, número um na lista regional. Os Emirados Árabes Unidos, onde fica Dubai, fica em segundo, tendo ressaltados seu bom clima de negócios, suas instituições públicas eficientes e um governo em sua maioria livre de corrupção. Bahrein é o terceiro na lista de mundo árabe do FEM. A parte mais dura do relatório diz que a maior parte dos 12 países árabes que fizeram parte do ranking que mede indicadores econômicos e sociais estão tendo seus desenvolvimentos freados por causa de corrupção nos governos, burocracia, dos crescentes déficits públicos, da lenta adoção de novas tecnologias e da limitada participação na economia global. Os países árabes teriam de criar 80 milhões de empregos nos próximos dez anos para dar conta da entrada de jovens no mercado de trabalho. "Só esse dado já dá a dimensão do potencial de instabilidade política e social que pode afluir nos próximos anos", disse Augusto Lopez-Claros, economista-chefe do Programa de Competitividade Global do Fórum. "Não é que você tenha de correr rápido, tem de correr mais rápido do que os outros", disse Mustapha Nabil, economista-chefe para o Oriente Médio do Banco Mundial. As crescente economias no leste da Ásia, a Índia e a Europa Oriental estão eclipsando o crescimento em grande parte do mundo árabe. Mas a euforia com os grandes lucros vindos da venda de petróleo vem permitindo que os governos árabes adiem as reformas, afirma Nabil. "Há muita resistência em mudar", diz. Os líderes árabes que participaram do encontro disseram que o documento é o mais claro indicador até agora sobre os problemas regionais e, além disso, traça um caminho para resolvê-los. Mesmo assim, muitos deles vieram a público dizer que essas soluções prescritas não são as mesmas propostas pelo presidente dos EUA, George W. Bush, que prega reformas democratizantes na região. Os céticos em relação a essas reformas políticas dizem que a intervenção forçada de Washington não é bem-vinda. Entre os piores colocados no ranking estão Líbano e Iêmen, que sofrem com problemas como instabilidade, baixo nível de poupança interna, inflação alta e ratings de crédito muito baixos. O Fórum Econômico Mundial afirma que as maiores economias, como Egito, Argélia e Arábia Saudita, precisam urgentemente tratar de seus problemas. O mundo precisa que "as economias de grande escala, como Egito e Argélia, precisam ser as locomotivas de crescimento do mundo árabe", disse Ismail Serageldin, diretor da Biblioteca Alexandrina, do Egito, e um dos autores do relatório. Os países árabes variam muito quanto ao nível de renda per capita e quanto aos esforços de liberalização econômica. Os qataris estão entre os mais ricos do mundo, com uma economia que cresceu 20% no ano passado e uma renda per capita de US$ 34 mil por ano. A renda per capita dos iemenitas é de pouco mais de US$ 500. Iraque, Kuait, Síria e Líbia não fizeram parte do ranking por causa das dificuldades de recolhimento de informações e da falta de confiabilidade das mesmas. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem como uma de suas prioridades uma aproximação maior com os países árabes. Uma das iniciativas tomadas pelo Brasil para isso é a cúpula entre os 22 países da Liga Árabe e os 12 da América do Sul, que se reúnem em Brasília nos dias 10 e 11 de maio. O encontro pretende "aproximar as duas regiões que podem cooperar econômica e financeiramente", dizem diplomatas brasileiros que organizam a reunião. As autoridades brasileiras dizem também esperar que as negociações de livre comércio entre o Mercosul e os países ou grupos de países árabes, como Egito, Marrocos e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), avancem durante a cúpula. O volume de transações comerciais entre o Brasil e os países da Liga Árabe ficou em US$ 8,1 bilhões em 2004 (49,7% a mais do que em 2003), segundo o governo, que aponta o equilíbrio entre exportações e importações.