Título: Inflação foi paga em 81% das negociações
Autor: Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 31/03/2005, Brasil, p. A4
As negociações salariais no ano passado tiveram o melhor resultado desde 1996. Em 81% dos acordos os reajustes foram iguais ou superiores às perdas com a inflação acumulada nos doze meses que antecedem a data-base - percentual muito superior aos 66,7% do ano 2000, o segundo melhor da série. Em 2003, apenas 41,6% dos acordos compensaram ou superaram o efeito da inflação. Para o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), responsável pelo levantamento, esse desempenho foi possível devido a um cenário econômico mais favorável, com crescimento do PIB, inflação controlada e queda do desemprego. O ganho de salário foi real, ou seja, ultrapassou a inflação acumulada em doze meses, em 54,7% das negociações. No entanto, desse total, a maior parte (23,7%) dos trabalhadores teve aumento entre 0,01% e 1% acima da alta de preços, enquanto 14,6% recebeu reajuste entre 1,01% a 2% além da inflação. Os maiores reajustes reais, superiores a 4%, foram conseguidos em apenas 3,8% dos casos. A melhora no cenário das negociações entre patrões e empregados foi impulsionada pelo setor industrial, no qual 87% dos acordos igualaram ou superaram a inflação. Dentre os segmentos industriais que conseguiram as maiores altas no salário estão a metalurgia, alimentação, calçados, e papel e celulose. Em seguida, veio a contribuição do comércio, que teve reposição de perdas inflacionárias em 82,3% dos acordos. Na lanterna está o setor de serviços. Marcado pelo alto grau de informalidade e menor organização dos trabalhadores, teve 71% de reajustes iguais ou superiores à alta de preços. Outro dado positivo para o mercado de trabalho foi o fato de que, em apenas 7% dos acordos o reajuste salarial foi parcelado, enquanto 92% receberam o aumento de forma integral. "A diminuição da prática de parcelar o aumento é boa para os trabalhadores, uma vez que evita que seus salários sejam corroídos por mais tempo pela inflação", afirmou José Silvestre de Oliveira, o supervisor do escritório regional do Dieese em São Paulo. O levantamento realizado pelo Dieese apontou também que no segundo semestre de 2004 as negociações foram mais favoráveis do que as do começo do ano. Dentre os 420 acordos e convenções coletivas com datas-base entre janeiro e junho, 76% deles apresentaram reajustes iguais ou superiores à inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Para as datas-base de julho em diante, os aumentos superiores à inflação chegaram a 90% do total. No estudo, o Dieese compara os reajustes de salário com o INPC, pois este é o indicador mais utilizado nas mesas de negociação. Para o diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, mesmo com os recentes ganhos salariais, o rendimento do brasileiro ainda está muito comprimido. Exemplo é o rendimento médio dos assalariados na região metropolitana de São Paulo, que chegou a R$ 1.006 em janeiro, o pior patamar em vinte anos. O diretor descarta a hipótese de que a melhora da renda seja o principal fator de pressão sobre a inflação. "O que impulsionou a economia no ano passado foi a expansão do crédito, especialmente o empréstimo consignado em folha de pagamento", explicou. Em 2005, a expectativa do Dieese é de que o número de negociações por reajustes que pelo menos reponham o poder de compra dos trabalhadores continue a crescer. João Carlos Gonçalves, o Juruna, secretário-geral da Força Sindical, tem dúvidas sobre o futuro dos acordos salariais. "Espera-se que o crescimento econômico do país dê uma freada, o que poderá dificultar as conversações com o setor patronal", ponderou o secretário.