Título: Seca no RS derruba preço e taxa de natalidade do gado
Autor: Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 31/03/2005, Agronegócios, p. B10

Além de provocar quebras recordes nas lavouras de grãos, a estiagem que já dura mais de três meses no Rio Grande do Sul - e só agora começa a dar sinais de arrefecimento - promete deixar pelo caminho perdas pesadas também para os criadores de gado de corte. Com as pastagens destruídas pela seca, a taxa de natalidade do rebanho deve cair entre 20% e 25% neste ano, os animais perdem peso antes mesmo da entrada do inverno, e os produtores estão acelerando as vendas aos frigoríficos para evitar maiores prejuízos, o que acaba pressionando os preços. Segundo o analista Fabiano Rosa, da Scot Consultoria, desde o início do ano o preço pago aos produtores pelo quilo do boi vivo caiu 21%, para cerca de R$ 1,50, na região norte do Estado, onde ficam os frigoríficos voltados ao mercado interno. Na metade sul gaúcha, onde está o frigorífico Mercosul, que abate cerca de 2 mil cabeças por dia, a cotação registrou alta de 3%, para R$ 1,76 porque a produção destina-se à exportação. Convertido para arroba, o preço praticado no norte do Rio Grande do Sul fica em R$ 45, o mais baixo do país, segundo Rosa. Segundo ele, esse é um valor inferior até ao registrado no Pará (R$ 46), Estado que, apesar da vacinação, ainda não conseguiu eliminar a febre aftosa. "O volume de oferta não está ruim, mas a qualidade da carne não é boa porque o gado está magro", comenta o diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Carnes do Estado (Sicadergs), Zilmar Moussalle. Segundo ele, a preocupação dos frigoríficos agora é com a disponibilidade de animais no inverno, período tradicional de entressafra em função da redução das pastagens que agora será agravado pela situação dos campos após a estiagem. Entre redução na taxa de natalidade e perda de peso de parte do rebanho de 14,5 milhões de cabeças de gado no Estado, a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) estima um prejuízo de R$ 678 milhões, revela o presidente da comissão de pecuária de corte da entidade, Fernando Adauto Loureiro de Souza. Segundo ele, o número de bezerros gestados este ano deve cair 25% sobre os 2,5 milhões de animais nascidos em 2004, ou 625 mil cabeças a menos. E o ano passado também foi afetado por uma estiagem, embora menos rigorosa do que a atual. O normal, explica, seriam 3 milhões de nascimentos. De acordo com o veterinário da Emater-RS Félix Rodrigues, a queda na taxa de natalidade é uma das primeiras conseqüências dos períodos de seca sobre os animais de corte. Com pouco pasto disponível, as vacas deixam de entrar no cio porque não têm como suprir as necessidades alimentares delas próprias e dos fetos. Segundo Rodrigues, o índice médio de prenhez no Estado é de 50% das vacas em condições de procriar, mas agora deve cair em pelo menos 20%. Outro problema é que os animais já estão entrando magros no período de inverno, quando a perda adicional de peso varia de 10% a 20%. "É um impacto muito grande sobre a renda dos produtores, que só será recuperado em dois ou três anos", afirma Souza, da Farsul. Na terça-feira, o Banco do Brasil anunciou um programa de crédito para a retenção de matrizes e crias de bovinos e bubalinos, para reduzir o descarte de animais. A linha terá R$ 200 milhões com juros de 8,75% até o limite de R$ 60 mil por beneficiário. A Farsul tinha solicitado ao governo uma linha emergencial de R$ 400 milhões para a retenção de matrizes, com limite de R$ 90 mil por criador. Para Fabiano Rosa, da Scot Consultoria, a possível falta de animais na entressafra tende a proporcionar alguma recuperação dos preços no segundo semestre, mas uma retomada mais consistente só deve ocorrer em 2006 em função da redução na produção de bezerros. Segundo ele, a redução da natalidade provocada pela seca pode ser até maior do que a cogitada pela Farsul, chegando a entre 700 mil e 800 mil animais a menos. Além disso, acrescenta, há o risco de um abate mais elevado de matrizes, na faixa de 5% de um plantel estimado em cerca de 5 milhões de animais. Segundo o analista, de 2002 a 2004 o abate de vacas aumentou 110% no Rio Grande do Sul, ante 89% na média brasileira. Nesse cálculo estão incluídas não só as fêmeas de engorda e descarte, mas também a matrizes, informa Rosa.