Título: Efeito do câmbio é parcial, diz Furlan
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 05/04/2005, Brasil, p. A4
Depois de reiteradas críticas ao atual patamar do câmbio, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Luiz Fernando Furlan, admitiu ontem que a valorização do real não está afetando "globalmente" o desempenho das exportações brasileiras. "O câmbio afeta as exportações, mas isso tem ocorrido setorialmente e não globalmente", disse Furlan, que participou ontem, em São Paulo, da abertura da Feira Internacional da Indústria do Plástico (Brasilplast). As exportações atingiram o recorde de US$ 25 bilhões no acumulado do ano até a primeira semana de abril, alta de 25,1% ante igual período de 2004. As importações aumentaram 19,2% na mesma comparação, para US$ 13,8 bilhões. No início do ano, Furlan, empresários e economistas previam um desempenho menos favorável para as exportações do país se o dólar permanecesse próximo a R$ 2,70. A moeda americana registrou média de R$ 2,67 no primeiro trimestre do ano. O ministro enumerou uma série de razões pelas quais a balança comercial brasileira não estaria sendo prejudicada pela apreciação do câmbio. Primeiro, alguns setores conseguiram reajustar preços e repassar uma parcela das perdas cambiais para os clientes. Isso só foi possível por conta do crescimento da economia mundial. Segundo, há setores que produzem produtos de valor agregado alto e dependem de insumos importados. "Há uma arbitragem que torna a importação de componentes mais competitiva", disse Furlan. Ele citou como exemplo a Embraer, fabricante de aviões e segunda maior exportadora do país. Terceiro, as exportações de alguns segmentos foram beneficiadas diretamente por uma conjuntura externa. É o caso do setor siderúrgico, já que os preços do aço dispararam. Furlan afirmou ainda que "as empresas se prepararam para um enfrentar um período de carestia em termos de cotação de câmbio". Ele explicou que algumas companhias, que priorizam os mercados europeu e japonês, trocaram o dólar pelo euro ou pelo iene em suas transações comerciais. O ministro também afirmou que o governo federal fez um grande esforço para abertura de novos mercados. Os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) apontam, porém, que as exportações brasileiras estão crescendo de forma mais vigorosa para os Estados Unidos e para a América Latina. Os embarques para os EUA aumentaram 36,2% no primeiro trimestre, contra uma alta de apenas 13,5% para a União Européia e 19,2% para a Ásia. Furlan ressalta, no entanto, que alguns setores estão efetivamente perdendo participação no exterior. Exemplo: calçados e algumas áreas do setor automotivo. Conforme a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), as exportações do setor atingiram US$ 161 milhões em março, queda de 2% ante março de 2004 e 10% em relação a fevereiro de 2005. Os calçadistas também estão reclamando de uma invasão de produtos chineses no mercado interno. A crítica é a mesma nos setores têxtil, eletroeletrônicos e de máquinas e equipamentos. Furlan afirma que o MDIC está monitorando as importações, principalmente de produtos da China. "A intenção não é bloquear, mas ter conhecimento do que está ocorrendo", disse. O ministro recomendou aos empresários que apresentem formalmente as reclamações sobre subfaturamento dos produtos chineses. Furlan não cogita, por enquanto, aplicar uma salvaguarda contra os produtos chineses. "Não temos nesse momento nenhuma demanda do setor privado".