Título: Cúpula quer evitar críticas a Israel
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 05/04/2005, Brasil, p. A5
Os promotores da Cúpula de Chefes de Estado da América do Sul e dos Países Árabes estão decididos a manter o caráter de cooperação comercial, cultural e científica do encontro e não deixarão que críticas à atuação de Israel dêem o tom da reunião, garantiram, ontem, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e o secretário-geral da Liga dos Países Árabes, Amre Mussa, em visita ao Brasil. Autoridades dos EUA manifestaram, no mês passado, em conversas informais, o temor de que a cúpula gere manifestações que apóiem grupos armados e interfiram nas negociações de paz em curso no Oriente Médio. "A conferencia não é (feita) contra ninguém, é pela cooperação entre dois grupos, grandes regiões, duas economias muito importantes", disse Mussa, lembrando que os países árabes já aprovaram, em 2002, resolução defendendo a paz e a normalização das relações entre Israel e os outros países do Oriente Médio, "desde que os dois lados cumpram suas obrigações e compromissos pela paz". Amorim lembrou que, ao discursar, no mês passado, para ministros dos países árabes, reafirmou que o Brasil mantém "boas relações" com Israel, e que defende negociações de paz capazes de garantir aos palestinos um Estado "economicamente viável, com respeito à dignidade humana, num contexto de paz regional". Garantiu que, nas conversas mantidas com a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, ela nunca manifestou temor sobre o uso político da reunião, que se realizará no início de maio, em Brasília. Sem mencionar os EUA, Amorim ironizou o pedido dos americanos para enviar observadores ao encontro, alegando que esse tipo de negociação entre duas regiões não comporta observadores externos. "A maior parte do encontro será aberto à imprensa, poderão observar pela televisão", comentou. Embora as discussões não devam resultar em negociações para acordos de livre comércio entre os dois grupos, esperam-se discussões bilaterais, como a anunciada entre o Mercosul e os países do Golfo, que devem ganhar impulso a partir do encontro, comentou Amorim. No ano passado, o comércio entre o Brasil e os países árabes subiu quase 50%, de US$ 5,2 bilhões para US$ 8 bilhões. O encontro já tem esboçada a declaração final, a ser assinada pelos presidentes, que trata da questão palestinos-Israel, reproduzindo termos das resoluções da ONU sobre o assunto, informou um assessor de Amorim. Um ponto importante, porém, terá de ser decidido pelos presidentes: como prosseguir a coordenação entre os dois grupos após a cúpula. Amorim revelou ser contrário a duas alternativas que chegaram a ser discutidas na última reunião preparatória: estabelecimento de uma reunião anual de chefes de Estado, à margem da reunião anual da ONU; ou criação de um comitê permanente para acompanhar o andamento das medidas decididas no encontro. Seria preferível um mecanismo menos formal, mais flexível, opinou o ministro. (SL)