Título: Quércia promete apoio a Lula, mas diz que PMDB terá candidato próprio
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 05/04/2005, Política, p. A8

A aproximação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a ala oposicionista do PMDB começa a surtir efeito. Ontem, depois de conversa de mais de uma hora e meia com Lula no Palácio do Planalto, o ex-governador e presidente regional do PMDB em São Paulo, Orestes Quércia, abrandou o discurso contra o governo. Quércia, que na última convenção nacional do partido foi um dos mais contundentes defensores da ruptura com o governo federal, já fala que o PMDB deve contribuir nas votações do Congresso com um projeto nacional que vise ao crescimento econômico. Sobre a reeleição de Lula em 2006, ele disse que se "opõe a fazer uma aliança porque o PMDB tem que ter candidato próprio". Ainda assim, afirmou que esse assunto não deve ser abordado agora. "Em São Paulo, na primeira hora apoiamos Lula. Queremos agora uma melhora e mais ousadia para o crescimento econômico do país", argumentou. "Nunca coloquei objeção ao apoio do PMDB ao governo federal. Eu fiz objeção a aspectos da política econômica", justificou Quércia. Há 15 dias, Lula pediu que o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, fosse a São Paulo fazer pessoalmente o convite a Quércia para um encontro em Brasília. O presidente optou por conversar sozinho com o pemedebista. Rebelo apenas passou pela sala ontem para cumprimentá-los. "O PMDB pode se unir mais no apoio ao governo Lula. Essa questão de candidatura a presidente ainda é um pouquinho afastada de hoje", disse Quércia, após o encontro. Segundo o pemedebista, o lançamento de uma candidatura à Presidência é fundamental porque alavanca a disputa nos Estados e no Congresso, aumentando as chances de representatividade do PMDB no país. Ele afirma que o partido tem bons nomes em São Paulo - incluindo o dele próprio. "Mas temos condições de trabalhar junto com o atual governo sem discutir a sucessão", alegou. Lula disse a Quércia que quer fazer uma reunião ampliada com o partido. Participariam dela os presidentes nacionais do PT, José Genoino; e do PMDB, Michel Temer, além de governadores pemedebistas. Questionado sobre a especulações de que o governo o indicaria para o posto de embaixador, Quércia desconversou: "Não tenho nenhuma vocação para ser embaixador". Pemedebistas confirmaram ao Valor que essa hipótese teria sido abandonada por resistências internas no Itamaraty. O PMDB já ocupa duas embaixadas: Itamar Franco (Roma), e Paes de Andrade (Lisboa). O aceno do governo federal ao PMDB oposicionista pode melhorar as relações no Congresso. Esse é o objetivo imediato. A discussão de alianças para 2006 é algo muito mais complexo, que envolve os Estados, e precisa ser discutida lentamente, na avaliação do governo. Um complicador desta relação é o adiamento da reforma ministerial. O presidente do Senado, Renan Calheiros, viaja com Lula na quinta-feira para Roma, na comitiva que acompanhará o enterro do Papa João Paulo II. Os pemedebistas continuam a cobrar nomeações não cumpridas. Na confusa reforma ministerial que não veio, os pemedebistas alegam que PL e PTB aproveitaram o "vácuo" na articulação política para acomodar integrantes das legendas nas pastas que comandam, os ministérios dos Transportes e do Turismo.