Título: O risco maior de default está nas empresas, diz FMI
Autor: Tatiana Bautzer
Fonte: Valor Econômico, 06/04/2005, Finanças, p. C1

O maior risco de default hoje nos países emergentes está nas empresas e não mais nos países, que vêm melhorando o perfil de sua dívida, afirma o relatório de Estabilidade Financeira Global do FMI divulgado ontem. No ano passado as empresas emitiram 60% do total da dívida de países emergentes, terceiro ano consecutivo em que superaram os emissores soberanos. Segundo o FMI, os balanços das empresas, apesar de terem melhorado nos últimos anos, ainda têm descasamentos expressivos. Como o financiamento ao setor privado é fundamental para o crescimento econômico, os governos deveriam tentar ajudar o gerenciamento de risco, exigindo melhor governança corporativa e reduzindo entraves burocráticos como os lentos processos de falência. De maneira geral, segundo o FMI, a situação financeira global melhorou no último ano, com fortalecimento dos balanços de empresas e bancos estimulado pelo crescimento da economia global. Mas continuam existindo riscos, principalmente de um aprofundamento da desvalorização do dólar ou alta brusca das taxas de juros nos EUA. "Os mercados emergentes poderiam ser fortemente afetados se houver alta de juros brusca", diz o relatório. Essa possibilidade é maior se houver atraso na solução de desequilíbrios globais, com aumento da taxa de poupança nos EUA e reformas para estimular o crescimento econômico na Europa e Japão. O maior risco agora, segundo o relatório, é a "complacência" de investidores e tomadores de recursos que se acostumaram a juros baixos. O processo de ajuste de finanças públicas abriu espaço para tomada de recursos pelas empresas. A dívida corporativa geral (incluindo crédito local ) em mercados emergentes subiu de uma média de 46% do PIB entre 1995 e 1997 para cerca de 62% entre 2001 e 2003. A dívida está concentrando-se mais em bônus e menos em crédito bancário e emissão de ações. O maior crescimento no endividamento ocorreu na Ásia, enquanto na América Latina houve uma redução no total de dívida. As empresas latinas também estão mais cautelosas com a dívida em moeda estrangeira, cuja participação caiu de 35% para 26% no mesmo período. Mas o Fundo argumenta que os dados macroeconômicos usados para calcular endividamento das empresas muitas vezes enganam. Considerando amostras de balanços de empresas asiáticas e latino-americanas, o FMI concluiu que a alavancagem das companhias asiáticas e latinas é semelhante hoje, de cerca de um terço dos ativos totais (em 1997 a alavancagem asiática era o dobro da latina). "Embora a situação tenha melhorado nos últimos anos, os descasamentos nos balanços das empresas permanecem altos", afirma o relatório, que aponta descasamento de prazos (excesso de dívida no curto prazo) e moeda (receita em moeda local e dívida em moeda estrangeira) como os principais problemas. No Brasil, o problema principal parece ser endividamento de curto prazo e não mais a indexação a moeda estrangeira. A média no Brasil é de 23% do endividamento total em curto prazo, para empresas consideradas "participantes do mercado" (presentes nos mercados internacionais), e mais que o dobro, 47,8% para empresas sem atuação no exterior. O endividamento em dólar é de apenas 11%, muito abaixo dos 51% na Argentina, 34% no Chile e 29% na Malásia. No Brasil, o FMI aponta crescimento do financiamento pelo mercado de capitais doméstico. Uma das maiores preocupações ao avaliar a liquidez das empresas é estimar impactos que não estão nos balanços, como a composição cambial dos ativos ou contratos de derivativos. "Essa questão é especialmente importante em países como o Brasil, que tiveram um crescimento significativo do mercado de derivativos de câmbio nos últimos anos", afirma o relatório. Um "box" específico sobre o Brasil mostra que, de um total de 620 empresas que não usavam derivativos em 1996, 19% utilizaram o instrumento, segundo notas explicativas dos balanços de 2002. Em média, os derivativos representavam 14% do total de dívida em dólar. A grande maioria (96%) usa contratos de swap, 2% opções e 4% futuros. As duas últimas alternativas exigem depósitos de margens nas bolsas. Um dos principais incentivos ao endividamento no Brasil é o alto custo de emissão de capital acionário (ver tabela). O FMI sugere que os governos de países emergentes procurem melhorar o gerenciamento de risco incentivando melhor governança corporativa, contabilidade mais transparente e maior rapidez dos sistemas jurídicos que lidam com falência e quebra de contratos. O Brasil e a Índia são os países emergentes com processos de falência mais lentos, que podem durar até 10 anos. O FMI sugere ainda fiscalizar melhor o cumprimento da regulação de mercado de capitais e fortalecimento do papel de diretores externos. Os emissores soberanos só tiveram boas notícias nos últimos meses. A média de spreads caiu em 2005 ao menor nível dos últimos oito anos. Dos países pesquisados pelo índice do JP Morgan, 49% são considerados "investment grade", e a perspectiva para 2005 é de que haja apenas elevações de algumas notas e nenhum rebaixamento. Em busca de melhor retorno, investidores estrangeiros vêm comprando dívida diretamente nos mercados locais, procurando não só o diferencial de juros, mas ganho cambial. A participação do investidor estrangeiro no mercado local ainda é pequena no Brasil, de 4%, mas chega a 20% na Polônia e 30% na Hungria.