Título: A competitividade comercial da China
Autor: Tatiana Bautzer
Fonte: Valor Econômico, 07/04/2005, Brasil, p. A2
A China abocanhou a maior parte da expansão drástica do comércio mundial no ano passado, segundo relatório divulgado ontem pelo Banco Mundial (Bird). O comércio mundial cresceu 10,3%, mas a China teve crescimento de 30% em exportações e importações. Outros países em desenvolvimento não acompanharam o crescimento chinês, perdendo mercado - na média, o crescimento do comércio nos países em desenvolvimento foi de 12,3%. O relatório não especifica dados do Brasil, mas se sabe que as exportações brasileiras cresceram mais de 25% no ano passado. Como já está virando rotina, o país asiático aparece em destaque em diversos relatórios sobre países em desenvolvimento divulgados por organizações internacionais nesta semana, em preparação para reuniões anuais. Sozinha, a China recebeu 34% do total de investimento direto em países em desenvolvimento- no ano passado, foram investidos no país US$ 56 bilhões de um total de US$ 165 bilhões em países em desenvolvimento. Os investimentos na China representam 33% a mais que o total para a América Latina. Só no ano passado, a China elevou suas reservas internacionais em mais de US$ 200 bilhões, graças ao seu superávit comercial, atingindo US$ 610 bilhões. O país tem 38% do total de reservas detidas por países em desenvolvimento e mais recursos que o total atual de ativos do Fundo Monetário Internacional (FMI), de cerca de US$ 330 bilhões, segundo os últimos dados disponíveis. Os investimentos pesados e o crescimento da participação da China nos mercados mundiais (sua fatia no comércio mundial subiu de 2,5% para 5,4% nos últimos cinco anos) estão provocando mudanças estruturais em alguns mercados. De produtos agrícolas a petróleo, a demanda chinesa é hoje apontada como o principal fator de pressão sobre preços de commodities. Boa parte da alta de 70% do índice CRB de commodities nos últimos três anos pode ser atribuída ao crescimento chinês. O crescimento mundial e preços de commodities estão cada vez mais dependentes do crescimento do país, que não está ocorrendo sem riscos. A altíssima competitividade chinesa fica clara em momentos de liberalização comercial, como a recente extinção das cotas de têxteis no mundo. Não só o Brasil, mas também os Estados Unidos e alguns países europeus estão pensando em adotar salvaguardas para limitar o acesso dos produtos chineses, que invadiram mercados de países desenvolvidos e em desenvolvimento com preços imbatíveis.
País já detém 5,4% do comércio mundial
Há algum tempo o Fundo Monetário Internacional (FMI) e outros organismos internacionais (além, é claro, do Tesouro americano) vêm insistindo numa mudança cambial na China, alegando que a cotação artificialmente baixa da moeda local em relação ao dólar é a razão da alta competitividade de seus produtos e um estímulo a desequilíbrios globais como o gigantesco déficit comercial dos Estados Unidos. A China recusa-se a fazer qualquer mudança sob pressão e afirma estar dando os passos necessários para fazer a mudança cambial com segurança. Depois de reuniões nas quais foi pressionada sobre o assunto, a China não estará presente à próxima reunião do G-7 em Washington, que precederá a reunião do FMI e Banco Mundial. Há problemas no sistema bancário que precisam ser solucionados e não se sabe a extensão do excesso de investimento em alguns setores. O Banco Mundial já alerta para a perspectiva de queda de exportações de produtos de alta tecnologia da Ásia no ano que vem, mas os investimentos continuam e podem estar criando um excesso de capacidade. Além disso, a expectativa de mudança cambial (e de valorização da moeda chinesa em relação ao dólar) só estimula mais investimento estrangeiro, que espera obter algum ganho cambial. A competição com os produtos chineses e medidas protecionistas têm feito o Brasil reduzir sua participação em grandes mercados de países desenvolvidos, como os Estados Unidos. Apenas em alguns casos, como no de têxteis, fica clara a dificuldade de competir diretamente com a China. De forma indireta, entretanto, o país já vem sentindo essa concorrência. A competitividade em exportações para os mercados mais ricos deveria ser a principal preocupação em setores considerados alvos da política industrial, como software e biotecnologia. Encontrar nichos de mercado onde seja possível vencer a concorrência é prioritário. A parcela de exportações brasileiras vinculadas a commodities, por outro lado, vem se beneficiando da forte demanda da China, que elevou preços internacionais de aço, minério de ferro e até recentemente, de soja. Dados divulgados pelo Banco Mundial e Institute of International Finance sobre exportações brasileiras afirmam que esta parcela de exportações tem se beneficiado mais da alta de preços do que de um aumento de volume. Portanto, seria interessante que esses exportadores tentassem aumentar o volume de vendas agora, evitando um efeito maior de oscilações de preços no futuro, na eventualidade de uma desaceleração de demanda chinesa.