Título: Expansão de emergentes atingiu o pico em 2004
Autor: Tatiana Bautzer
Fonte: Valor Econômico, 07/04/2005, Internacional, p. A15

O crescimento econômico de países em desenvolvimento deve desacelerar este ano, mas continuará alto. Em 2004, o PIB desses países cresceu 6,6%, a maior taxa em 30 anos, e a expectativa do Banco Mundial para este ano é de 5,7%, e 5,2% em 2006. Segundo o Bird, a economia mundial cresceu 3,8% no ano passado e terá uma desaceleração mais acentuada este ano, para 3,1%. Os países em desenvolvimento foram beneficiados pela recuperação econômica global, que resultou em aumento de exportações e alta de preços de commodities. O comércio mundial cresceu 10%, mas os países em desenvolvimento cresceram 12,5% em transações de exportação e importação. China, Índia e Rússia tiveram as taxas de crescimento mais altas do mundo. A partir deste ano, o crescimento deve desacelerar por conta dos efeitos dos altos preços do petróleo sobre a atividade econômica, alta das taxas de juros e tendência de redução de estímulos fiscais pelas principais economias do mundo. Os Estados Unidos, principalmente, devem iniciar a redução dos déficits público e de conta corrente. "Depois do ano excepcional que foi 2004, não haverá melhora. As taxas de juros vão subir, e o crescimento mundial deve ser um pouco menor", afirmou Uri Dadush, o diretor do Bird responsável pela elaboração do relatório. Este ano, o déficit de conta corrente dos EUA atingirá 6% do PIB. "Esse nível é insustentável, e a redução desse déficit provocará consequências difíceis de avaliar hoje. Exigirá ajustes nas taxas de juros e de câmbio", afirma Dadush. O relatório aponta "desafios" para os países em desenvolvimento ao lidar com riscos substanciais provocados pelos desequilíbrios nas economias internacionais - principalmente a provável alta das taxas de juros e continuidade da desvalorização do dólar. O principal risco, discutido pelos mercados há algum tempo mas ainda presente, é o de mudança das condições de financiamento para países emergentes, com alta nos juros nos EUA e redução da liquidez. Os spreads para captações de países emergentes estão em níveis historicamente baixos, e o Bird acredita que isso sugere que os mercados estão "subestimando os riscos de crédito". Em 2004, o financiamento por meio de bônus pela primeira vez superou o crédito bancário, segundo o Bird, o que torna os países mais vulneráveis a uma alta brusca de spreads. Apesar do alerta, o Bird admite que os países têm sido mais prudentes na administração de sua dívida, reduzindo os encargos em moeda estrangeira. O percentual de dívida pública em dólar caiu de um pico de 45% em 1999 (ano em que havia grande número de países em desenvolvimento usando regimes de câmbio fixo) para 39% em 2003. A relação entre dívida e exportação caiu de 135% em 1997 para 125% em 2003. Os países que vêm acumulando reservas rapidamente (especialmente a China, com US$ 610 bilhões ou 38% do total de reservas dos países em desenvolvimento) também precisam avaliar o custo desse aumento de reservas. China, Coréia e Índia já utilizaram a maior parte dos instrumentos disponíveis para "esterilizar" o impacto do aumento das reservas internacionais e devem considerar seu impacto macroeconômico de expansão monetária, afirma o Bird. Numa palestra ontem na Universidade Georgetown, em Washington, o diretor-gerente do FMI, Rodrigo Rato, disse que a expansão da economia mundial está "menos equilibrada e excessivamente dependente dos Estados Unidos e da China, enquanto o crescimento na Europa e Japão, que representam um quarto do PIB mundial, está abaixo das expectativas". Rato alertou para dados recentes mostrando escalada da inflação nos Estados Unidos e os preços do petróleo, que estão batendo novos recordes de alta, e para o risco de um ajuste desordenado do alto déficit de conta corrente americano. O Banco Mundial procura prever com cenários o efeito de um ajuste desordenado no mercado. Um dos cenários prevê que uma alta de juros de 2 pontos percentuais nos EUA acima das projeções do mercado, combinada a um aumento de 60% nos spreads para países emergentes, provoque uma perda de 3 pontos percentuais em crescimento econômico nos países em desenvolvimento em 2005, e até 5 pontos percentuais em 2006. O relatório também aponta mudanças estruturais no comércio mundial que estão ocorrendo por conta do expressivo crescimento da China. No ano passado, os preços de energia subiram 30% e os índices de commodities metálicas e minerais, 37%. Apesar da queda dos preços no fim do ano, as commodities agrícolas acumularam alta de 10,5%. A principal razão foi a demanda chinesa. Países de renda média e baixa responderam por 74% do aumento da demanda por metais e petróleo no ano passado. No caso do petróleo, especificamente, o impacto da China é expressivo e pode explicar os recentes recordes de alta atingidos pelo barril, com um desequilíbrio entre demanda e oferta. "Estoques pequenos e alta demanda devem manter os preços do petróleo em alta durante a primeira metade de 2005, com possível redução depois". Projeta-se um preço médio de US$ 42 por barril ao longo do ano. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), metade da demanda por petróleo em 2030 virá de países hoje classificados como economias de renda média ou baixa.