Título: Apesar da inflação, atividade deve conter alta de juros
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 08/04/2005, Brasil, p. A3
Com os sinais cada vez mais evidentes de que a atividade econômica desacelerou no primeiro trimestre, o Banco Central (BC) deve interromper neste mês o ciclo de alta de juros iniciado em setembro, mesmo num cenário de pressões inflacionárias no atacado. Além de a produção industrial de fevereiro ter confirmado que o aperto monetário já reduziu o ritmo de crescimento, os fatores que pioraram as perspectivas para a inflação nas últimas semanas são típicos choques de oferta. Por isso, não devem ser combatidos com mais rigor pelo BC, segundo analistas. É o caso da alta do preço do petróleo e de outras commodities e da disparada das cotações agrícolas, causadas em parte pela estiagem no Sul do país. Além disso, o dólar a R$ 2,60 também deve ajudar a autoridade monetária no combate à inflação. Tudo indica que o BC vai permitir a valorização do câmbio, para que a queda dos índices seja mais rápida. O economista-chefe do HSBC, Alexandre Bassoli, aposta que o BC vai parar de elevar os juros neste mês, depois de aumentar a Selic de 16% para 19,25% ao ano. Segundo ele, quando a Selic começou a subir em setembro, o BC estava preocupado com o impacto do aumento da demanda sobre preços. Para Bassoli, um sinal de que a atividade estava realmente forte é que o núcleo do IPCA calculado pela exclusão de preços administrados e alimentos subiu 7,9% no ano passado, acima da variação do índice cheio, de 7,6%. Isso mostra que a inflação de 2004 não se limitou apenas a choques de oferta, como os relacionados à disparada das commodities, diz ele. O cenário atual, porém, é bem diferente. Hoje, a economia está em desaceleração, como deixou claro a queda de 1,2% registrada pela produção industrial em fevereiro, em relação ao mês anterior, na série livre de influências sazonais. Em janeiro, o indicador recuara 0,6% na comparação com dezembro. Para Bassoli, essa desaceleração é resultado da política monetária, e indica que as pressões de demanda se dissiparam. Ele avalia que o repique inflacionário no atacado é um choque de oferta, causado pela alta do petróleo e de outras commodities e pela quebra de safra agrícola, e por isso não há necessidade de o BC ser tão duro. Nesses casos, não cabe à autoridade monetária combater diretamente a alta dessas cotações, mas apenas impedir que ela se propague para os demais preços da economia, lembra o economista-chefe do Unibanco, Marcelo Salomon. O Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) de março, fechou o mês com alta de 0,99%, pressionado pela alta das cotações agrícolas no atacado, que subiram 3,59%. Os preços da soja aumentaram 15,75%, na esteira da quebra da safra no Sul. Salomon elevou sua estimativa para o IPCA neste ano de 5,9% para 6,1%, basicamente porque os preços de energia elétrica devem subir acima do esperado. Os reajustes que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou à Cemig, de 23,8%, e à Celpe, de 30%, indicam que as cotações de energia vão aumentar mais que o projetado anteriormente. Também esse é um aumento de custos que não deve ser combatido pela política monetária, afirma ele. Salomon estima que o BC vai manter a Selic em abril, deixando-a inalterada até outubro, quando poderia cair. Bassoli é mais otimista, esperando que os juros caiam a partir de agosto, fechando o ano em 16,5%. O economista José Márcio Camargo, sócio da Tendências Consultoria Integrada, também acha que não é mais necessário elevar os juros, que já estão muito altos. Além disso, o impacto da alta dos juros promovida desde setembro sobre a economia vai aumentar nos próximos meses. Nesse cenário, a desaceleração da atividade econômica vai continuar, afirma. Para ele, o comportamento do câmbio também vai ajudar a combater a inflação. Como o país está com um nível relativamente confortável de reservas (US$ 38 bilhões, excluindo os recursos do FMI) e a balança comercial continua com ótimo desempenho, o BC deve ser bem mais moderado nas compras de dólares nos próximos meses, avalia Camargo. Com isso, um câmbio mais valorizado deve contribuir para a queda da inflação. Para ele, o IPCA pode terminar o ano na casa de 6%.