Título: Exportador pede nova regra cambial
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 08/04/2005, Brasil, p. A4
Apesar dos recordes obtidos pela balança comercial, os exportadores brasileiros divulgaram um manifesto ontem reclamando da atual cotação do dólar e pedindo mudanças na política cambial. Os empresários querem que o Banco Central retome a compra de dólares no mercado financeiro e que o governo modifique a legislação para reduzir a oferta da moeda americana. Os exportadores argumentam que os efeitos da valorização cambial já aparecem nos setores intensivos em mão-de-obra e com ciclo de produção mais curto, como calçados e têxteis. Eles acreditam que o impacto será generalizado no médio prazo. Para Josué Gomes da Silva, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), os exportadores não estão investindo em aumento de capacidade, porque "o ânimo está abalado". Os embarques de calçados caíram 2% em março ante o mesmo mês em 2004. As exportações totais do país, contudo, subiram 22% em março ante o mesmo período do ano anterior. No acumulado do trimestre, a alta foi de 27,8%. O dólar ficou em R$ 2,67 na média de janeiro a março. "Com a resistência que a balança comercial brasileira está apresentando, o governo esquece que os efeitos são de médio prazo", diz Benedito Fonseca Moreira, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Calçados, Elcio Jacometti, "as exportações estão aumentando, mas os empresários vêem um buraco negro". Ele afirma que o setor demitiu 5 mil funcionários no Rio Grande do Sul por conta da alta do real. Assinado por 21 entidades de classe, o manifesto foi entregue na quarta-feira à noite ao ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, e ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. O documento sugere ao governo quatro medidas. Os exportadores pedem que o BC retome os leilões de compra de dólar e os leilões de swap cambial reverso (uma espécie de compra de dólares no mercado futuro). O setor produtivo atribui a chegada do dólar a R$ 2,60 à interrupção desses leilões no mês passado. As entidades de classe também querem que o governo regulamente linhas de crédito à exportação pré-embarque com financiamento em real, mas denominadas em dólar. O exportador hoje fecha um adiantamento de contrato de câmbio, vende os dólares e aplica os recursos no mercado interno, aproveitando as altas taxas de juros. "É uma atitude suicida, porque o exportador ganha com juros, mas aprecia o câmbio", diz Roberto Giannetti da Fonseca, presidente da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). Finalmente, os exportadores pedem a redução do prazo de financiamento à importação para 30 dias. Seria uma maneira de reduzir a oferta de dólares no mercado interno. Eles também acreditam que alguns importadores estão tomando financiamento de longo prazo e aplicando os recursos em juros. Os exportadores também reclamaram de mudanças na legislação tributária. Na última reunião do Conselho de Política Fazendária (Confaz), ficou decidido que o ICMS na importação incidirá sobre qualquer despesa aduaneira, como tarifa aeroportuária, utilização do Siscomex, pagamento dos despachantes, manuseio de contêineres e até direitos antidumping. A AEB ainda não calculou qual será o impacto da mudança sobre o custo das empresas.