Título: País é pressionado nas negociações de produtos industriais da OMC
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 08/04/2005, Brasil, p. A4

Os países ricos estão aumentando a pressão sobre o Brasil nas negociações de produtos industriais da Organização Mundial de Comércio (OMC). Os acordos setoriais - nos quais as tarifas são reduzidas substancialmente em um setor específico - estão se tornando inevitáveis. Além disso, começa a haver uma convergência entre os países em torno da adoção da fórmula Suíça para o corte de tarifas industriais. Segundo documento que circulou ontem entre os empresários que participaram de reunião do Fórum Nacional da Indústria em São Paulo, e ao qual o Valor teve acesso, apenas Brasil, Índia e Argentina se manifestaram formalmente na OMC contra a adoção da fórmula Suíça. A China se limitou a dizer que poderia dar seu apoio a fórmula Girard. A fórmula Suíça é defendida pelos países ricos e corta proporcionalmente mais as tarifas mais altas. Já a fórmula Girard pondera os resultados pela tarifa média de cada país. Isso significa que países com tarifas altas como o Brasil são obrigados a uma liberalização menos expressiva. Os países em desenvolvimento estão divididos. Segundo o documento que relata as negociações de bens industriais na OMC que ocorreram entre 14 e 18 de março, "a maioria dos países em desenvolvimento apóia a aplicação da fórmula Suíça e manifesta interesse na abertura de mercados dos países de desenvolvimento médio (Brasil e Índia)". O único país latino-americano que manifestou apoio às intervenções brasileiras durante essa última rodada de negociações industriais em Genebra foi a Argentina. Os países ricos até aceitam que sejam utilizados na fórmula coeficientes diferentes para os países em desenvolvimento. É o coeficiente que define o tamanho do corte da tarifa de importação. Em contrapartida, eles querem que os países em desenvolvimento abram mão de suas flexibilidades, como, por exemplo, excluir produtos da negociação. As propostas apresentadas por Estados Unidos, União Européia e Noruega caminham nessa direção. Os acordos setoriais são mais uma preocupação para a indústria brasileira. Segundo o subsecretário de assuntos econômicos do Itamaraty, Clodoaldo Hugueney, é preciso verificar se há setores interessados. O embaixador afirmou que o Brasil foi contra os acordos setoriais enquanto estavam sendo discutidos os conceitos. Mas agora as negociações estão avançando rapidamente. "Nossa posição é que sejam aceitos apenas acordos voluntários", disse Hugueney, que também participou ontem da reunião promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Setores agrícolas já manifestaram seu interesse em zerar as tarifas de importação mundiais. Já a indústria rejeita a idéia. Também circulou entre os empresários uma nota combatendo os acordos setoriais. Segundo o documento, esses acordos desequilibram a negociação, pois concentram os esforços de abertura comercial em apenas um setor. A nota também afirma que, mesmo que os acordos sejam voluntários, será intensa a pressão sobre os países relevantes para o comércio de determinado setor que não queiram participar. A nota é clara: "A modalidade de negociações setoriais não é do interesse de nenhum segmento da indústria brasileira." (RL)