Título: PT e PSDB divergem sobre os CEUs
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 08/04/2005, Especial, p. A14

No extremo oeste da cidade, as crianças que freqüentam o Centro Educacional Unificado Vila Atlântica- uma das 21 escolas que foram o cartão de visita do governo Marta Suplicy- não têm água. Com apenas dois anos de idade, a deterioração do prédio é grande. Quando chove, os alunos são dispensados porque a água cai nas tubulações e pode gerar problemas elétricos. O chão do centro educacional está cedendo e corre o risco de desmoronar. Para abastecer a escola, é preciso um caminhão pipa. Com as chuvas de março, parte do terraço do CEU desabou. O centro educacional sofre problemas de estrutura desde o fim da gestão de Marta, responsável pela sua construção, mas o principal receio dos usuários, moradores dos bolsões de miséria onde foram construídos os escolões, era o de que o prefeito José Serra parasse as atividades dos escolões. Nos 100 primeiros dias do governo, as aulas em todos os CEUs foram mantidas, mas algumas atividades culturais foram suspensas. Os violinos e os violoncelos da Big Band não tocam mais. As cortinas vermelhas do teatro estão fechadas para apresentar grupos da comunidade. Os educadores responsáveis pelos projetos culturais foram afastados para reavaliação do trabalho. Alguns se desligaram dos CEUs por não receberem desde outubro , depois da eleição. Agora, estão junto com milhares de credores para receber a remuneração devida. Os problemas da estrutura do prédio e do atraso dos pagamentos alimentam a briga política entre o PT e o PSDB. Os tucanos procuram explorar o estado das construções deixadas pelo governo de Marta. Dizem que os CEUs foram abandonados já na gestão passada. De outro, os petistas alegam que as construções têm cinco anos de garantia e que o novo governo "tenta desmerecer a construção dos CEUs" e o "enorme benefício que eles trouxeram". Afirmam que o abandono dos CEUs é culpa do prefeito atual. As aulas continuaram normalmente, mas, até o começo de abril, as crianças tinham recebido apenas duas camisetas como uniforme escolar. Também não receberam o material de apoio, como cadernos, lápis, caneta e mochila. O secretário de Educação, José Aristodemo Pinotti, afirma que apesar da demora, a entrega foi anterior a realizada pela gestão de Marta. Durante três meses, as crianças não receberam leite em pó, distribuído pela prefeitura nas escolas, para incentivar a freqüência escolar e diminuir a desnutrição infantil. Anita Aparecida de Oliveira, mãe de Anderson, de 11 anos, não tem recursos para comprar material para o filho . "Não posso comprar nada. Estou desempregada". Ao contrário do Ciep, projeto semelhante executado durante o governo Brizola no Rio de Janeiro, que com o tempo perdeu suas características em meio à indiferença da população, no caso dos CEUs os funcionários pensam que há maior engajamento dos beneficiados com o projeto. "A população do entorno tem o compromisso de conservar. Quem garante a continuidade é a comunidade ao se sentir dona do bem público", disse Andrea Zink Bizarria, a gestora do CEU, escolhida ainda na gestão de Marta, pela comunidade local. O enfoque mudou e o investimento direto do Estado na área social ganhou novo formato. A prefeitura agora tenta parcerias com a iniciativa privada para retomar investimentos na área. Em reunião com vereadores, Pinotti disse que para solucionar a falta de vaga nas creches incentivará as empresas, a construir creches em suas dependências para os filhos dos funcionários. Sobre os CEUs, Pinotti citou como alternativa para retomar os trabalhos com voluntários. Os investimentos estão congelados desde janeiro. O total empenhado nos três primeiros meses de governo foi de apenas R$ 74 milhões e o pago, somente R$ 300 mil, segundo um relatório da bancada do PT na Câmara dos Vereadores. Pinotti afirmou que vai acabar até o fim do ano com as escolas modulares, mas cerca de 50 mil crianças ainda têm que estudar em salas de latinha, com problemas acústicos e térmicos. Os empreiteiros contratados emergencialmente para construírem as escolas novas não recebem nada desde o final do governo de Marta e estão retardando as obras ao máximo, alegando falta de capital de giro. Na gestão anterior, o controle da Educação foi descentralizado em 31 coordenadorias, dentro de cada subprefeitura. Mas no primeiro mês de mandato, Serra anunciou a recentralização do controle, ao diminuir o número de coordenadorias, contrariando seu discurso quando candidato: "Não acreditamos em poder central que tudo sabe e que tudo pode", disse. O mesmo foi feito na Saúde. Outra mudança sentida foi em relação aos mecanismos de participação popular. Nesta gestão, eles ainda são restritos. O Orçamento Participativo, que entre 2001 e 2003 mobilizou 169 mil pessoas, parou. O Conselho de Representantes, concebido para a população fiscalizar as ações do governo, foi considerado inconstitucional e ainda não tem previsão para ser concretizado. O Executivo não encaminhou nenhum projeto à Câmara garantindo o conselho.