Título: Varig melhora resultado, mas não tem caixa para pagar dívidas
Autor: Vanessa Adachi
Fonte: Valor Econômico, 08/04/2005, Empresas &, p. B1
O balanço de 2004 da Varig, publicado ontem, mostra o retrato de uma companhia aérea que se beneficiou do crescimento do setor no ano passado para melhorar o seu desempenho operacional. Mas não o bastante para fazer frente aos pesados encargos de sua dívida bilionária, contabilizada no balanço em R$ R$ 5,7 bilhões. A Varig apresenta uma elevada concentração de vencimentos dessa dívida no curto prazo. Segundo a própria empresa informa, neste ano a parcela a pagar é de R$ 1,284 bilhão. Isso equivale a três vezes a capacidade de geração de caixa operacional da empresa, de cerca de R$ 450 milhões. "Temos um problema muito grave de fluxo de caixa", afirma Ricardo Bulara, diretor de controladoria e de relações com investidores da Varig. Por conta disso, em seu parecer, os auditores da Trevisan afirmam que "as projeções do fluxo de caixa da companhia indicam a necessidade de captação de relevantes recursos no curto prazo para possibilitar a manutenção de suas atividades". O resultado da atividade, que leva em conta receitas operacionais, os custos dos serviços prestados e as despesas operacionais, foi positivo em R$ 458 milhões e 36,4% superior ao de 2003. O número foi mais uma vez fortemente influenciado pelo regime de compartilhamento de vôos com a TAM, que vigorou nos últimos dois anos, mas que termina no mês que vem. Em 2002, antes do chamado code-share, o seu resultado da atividade havia sido de meros R$ 42 milhões. "O fim do compartilhamento vai ter um impacto negativo, o nosso maior receio é em relação à redução da receita", afirma Bulara. De acordo com ele, como a companhia tem limitação de frota, a expectativa é de perda de participação de mercado. O resultado da atividade é mais fraco que o de suas concorrentes, principalmente a Gol. A aérea de baixo custo, que tem uma receita equivalente a apenas 20% do faturamento da Varig, obteve um resultado da atividade de R$ 474,1 milhões, superior ao da Varig. A TAM, que teve receita líquida de R$ 4,52 bilhões, lucrou R$ 295 milhões com sua operação. Com isso, a margem da atividade (lucro da atividade dividido pela receita líquida) da Varig é a mais baixa entre as grandes aéreas brasileiras: apenas 5,17%. A TAM ficou com margem de 6,52% e a Gol, com 24,2%. A receita líquida consolidada da Varig cresceu 11,4% no ano passado, atingindo R$ 8,86 bilhões. Os custos dos serviços prestados cresceram na mesma proporção, 11,9%, para R$ 6,32 bilhões. De acordo com Ricardo Bulara, se o petróleo tivesse ficado no mesmo patamar de preços de 2003, os custos teriam sido R$ 300 milhões inferiores. "Infelizmente, a situação financeira da companhia não permite fazer operações de hedge para proteger contra a variação do combustível", afirmou. A melhoria do resultado da atividade obtido pela empresa veio, basicamente, do lado das despesas comerciais, que subiram menos que as receitas. Essas despesas aumentaram 4,74%, para R$ 1,83 bilhão. De acordo com o diretor, isso foi resultado de uma política de redução de comissões pagas principalmente a agentes europeus. Bulara acredita que neste ano as comissões cairão também no Brasil, por causa do uso mais intensivo da internet nas vendas de bilhetes. O patrimônio líquido negativo da Varig era de R$ 6,4 bilhões em 31 de dezembro. Já o seu resultado líquido melhorou sensivelmente em relação a 2003, passando de um prejuízo de R$ 1,8 bilhão para uma perda de R$ 87 milhões. Essa melhoria praticamente não tem relação com o resultado da atividade. O que determinou a redução drástica do prejuízo foi a diminuição do volume de provisões e contingências, que em 2003 haviam totalizado uma despesa de R$ 1,99 bilhão. "Só em multas e correção monetária de dívidas tributárias para podermos ingressar no programa de parcelamento, a provisão em 2003 foi de R$ 1 bilhão", explica o diretor. A divulgação do balanço da Varig, o último da safra do setor, permite confirmar que a aviação brasileira experimentou um ano de forte crescimento e recuperação de indicadores em 2004. A receita das três principais companhias cresceu. A da TAM cresceu 25,9%. A companhia foi quem melhor capturou os efeitos da quebra da Vasp, já que tinha um excedente de aviões. A receita da Gol avançou 40%. O resultado líquido das três empresas também melhorou. A aérea de baixo custo passou de um lucro de R$ 113 milhões em 2003 para R$ 322,4 milhões. A TAM evoluiu de R$ 174 milhões para R$ 341 milhões. A margem líquida (resultado líquido sobre receita líquida) da Gol foi de 16,4%, enquanto a TAM ficou com 7,55%.