Título: Furlan critica barreiras da Nigéria na visita de Lula
Autor: Sergio Leo De Abuja
Fonte: Valor Econômico, 12/04/2005, Brasil, p. A8

Queixas do governo contra as barreiras nigerianas aos produtos brasileiros marcaram o início da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Nigéria, o país com quem o Brasil tem o maior comércio na África, e também o maior déficit comercial, de US$ 3 bilhões. O déficit deve ter grande aumento neste ano, quando as exportações da Nigéria ao Brasil devem superar em US$ 4 bilhões o total das vendas brasileiras àquele país, alertou o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan. Durante a primeira reunião de trabalho da comitiva de Lula, ele cobrou das autoridades nigerianas explicações sobre as barreiras aos produtos brasileiros. Lembrado pelos diplomatas que há resistência dos exportadores brasileiros em vender ao país devido ao não-pagamento de compras durante a década de 80, Furlan afirmou que o governo quer criar algum mecanismo de "garantia colateral", com base nas compras de petróleo feitas à Nigéria pela Petrobras. Como já havia ocorrido na primeira etapa da viagem à África, no Camarões, em que recebeu apoio à pretensão brasileira de um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, Lula colheu, já no começo da viagem à capital nigeriana, um trunfo político: na primeira reunião de trabalho, o presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo, pediu ao brasileiro que promova uma reunião de cúpula entre os países da África e da América do Sul, a exemplo da cúpula que será realizada em maio, em Brasília, com os países árabes. Obasanjo foi convidado para visitar o Brasil em setembro, um mês após a reunião dos chefes de Estado da Comunidade Sul-Americana de Nações. Apesar das declarações de boa vontade política dos presidentes, a ausência dos ministros nigerianos do Comércio e da Indústria, na primeira reunião de trabalho, irritou Furlan, que, ao tentar fazer contato com o único representante do ministério da Indústria, foi informado de que qualquer contato entre as delegações teria de esperar os presidentes. "Estamos jogando tempo fora, já podíamos estar conversando", comentou Furlan com o embaixador do Brasil na Nigéria, Carlos Guimarães. "Há um problema de confiança por parte dos exportadores brasileiros", argumentou Guimarães, ao ouvir de Furlan que a Nigéria importa de outros fornecedores produtos que fazem parte da pauta de exportações brasileira. "Eles perderam dinheiro com inadimplência nos anos 80, mas nós importamos mais de US$ 3 bilhões, podemos montar algum mecanismo de garantia com a Petrobras", argumentou Furlan. "Quero exportar US$ 1 bilhão". A irritação de Furlan levou o chefe do departamento de Promoção Comercial do Itamaraty, Mário Vilalva, a buscar o representante do Ministério da Indústria, que foi submetido pelo ministro do Desenvolvimento a uma sabatina, com perguntas sobre as barreiras aos produtos brasileiros. Sorrindo, o nigeriano reconheceu que há barreiras para venda de calçados e óleo comestível. Furlan, lendo a lista de exportações brasileiras e importações nigerianas, quis saber sobre as barreiras para alimentos industrializados, e ouviu que há cotas, preenchidas de acordo com ordem de apresentação das propostas de importadores. O ministro não conseguiu respostas satisfatórias para outros produtos, como margarina, máquinas e fumo. Ao fim da conversa, pediu um cartão de visita e decepcionou-se mais uma vez. "O cara vem para uma reunião e não traz cartão; depois pensam que é fácil." A passagem de Lula para a Nigéria é considerada a principal etapa da viagem, em termos comerciais. Dos US$ 3 bilhões vendidos pelo país ao Brasil, 99% são petróleo em bruto e gás; a Nigéria vende 52% do petróleo consumido pelo Brasil, lembrou Furlan. Os brasileiros venderam, em 2004, US$ 505 milhões, principalmente açúcar e gasolina, em em pequena escala, plásticos e automóveis. Incomodado por não entender como o Brasil exporta tão poucos produtos, quando a Nigéria importa muitas mercadorias da pauta de exportações brasileira, Furlan comentou que as barreiras encontradas pelos exportadores não são muito transparentes. "As listas mudam com freqüência", disse. "A Nigéria importa US$ 20 bilhões ao ano; neste ano chegaremos perto de US$ 1 bilhão, mas precisamos diversificar." À saída do primeiro encontro dos dois governos, Furlan informou que haverá uma reunião do embaixador brasileiro com o presidente Obasanjo para discutir as barreiras comerciais do país. "A reunião foi muito positiva, no sentido de estreitar a relação com o Brasil", relatou. "Conhecendo-nos, vamos tratar das dificuldades, e, em seguida, viremos com uma missão de empresários", anunciou o ministro, que previu a vinda da missão com representantes do setor privado no segundo semestre. Durante os dois primeiros meses de 2005, as exportações brasileiras à Nigéria aumentaram 208%, para US% 151 milhões, e as importações cresceram 156%, para US$ 712 milhões. A grande burocracia no país pode ser sentida pela comitiva de Lula pelas medidas de segurança. Embora poucos fossem submetidos a detectores de metal ou outros cuidados comuns em encontros de autoridades, cada carro da delegação foi parado em quatro postos de verificação, e os ocupantes submetidos a uma chamada, inclusive os automóveis do ministros, que se deslocaram da casa de hóspedes oficiais para o palácio do governo, ao lado.