Título: Lula se impõe no acerto petista
Autor: Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 12/04/2005, Política, p. A9
Aparentemente extemporânea, a reunião do chamado campo majoritário do PT no último fim de semana, no Rio, foi um gesto político calculado. Mostra uma mudança de postura tática - ou, talvez, amadurecimento - do partido: em vez de encostar Lula no canto da parede, o PT desta vez primeiro entregou a mercadoria; agora, espera a contrapartida do Palácio do Planalto, levando aquilo que não conseguiu na marra na natimorta reforma ministerial de março. O campo majoritário do PT reúne cerca de 70% do partido, abrigado em duas tendências principais: a Unidade na Luta, que o lidera, e a Articulação de Esquerda. As decisões de sábado e domingo desde já demarcam os termos da atuação petista, nos próximos 17 meses, para assegurar a reeleição de Lula em outubro de 2006. O "campo majoritário" deu tudo o que Lula pediu. A saber: 1-O apaziguamento da disputa entre os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Antonio Palocci (Fazenda) em torno da política econômica, espécie de trégua que retira do horizonte de curto prazo qualquer escaramuça mais acirrada. Isso num momento em que Dirceu, sentindo-se desprestigiado com o recuo de Lula na reforma ministerial, voltara a assestar as baterias na direção de Palocci. 2-Definiu a reeleição do ex-deputado José Genoino (SP) à presidência do partido, apesar da ampla mobilização dos setores mais à esquerda, que já reúne mais de 12 tendências, para apresentar um candidato e um compromisso alternativo de política econômica. Genoino será o interlocutor do PT para a reeleição de Lula. 3-Estabeleceu em documento que a política de alianças nos Estados é prioritária, em 2006. Ao contrário de 2002, o leque da coligação de Lula irá além dos jardins do PL e pode até trocá-lo pelo PMDB como parceiro preferencial, motivo de grande inquietação sobretudo nos Estados onde PT e PMDB disputam a hegemonia política, como no Rio Grande do Sul. Em letra de forma, os compromissos assumidos pelo "campo majoritário" adquirem outro significado, pelo menos em tese não estariam mais sujeitos a contestações de um ou outro de seus integrantes, como é comum no PT. A crítica virá da esquerda, mas é pouco provável que ela alcance a marca dos 40% dos cerca de 800 mil eleitores habilitados a votar na eleição prevista para 18 de setembro. O problema é que acordo do "campo majoritário" encerra expectativas. Muitas delas pessoais. Hoje como ontem, o "campo" avalia que precisa de instrumentos para implementar o plano-mestre definido na cúpula do Rio. Por "instrumentos", é claro, o PT entende a articulação política. Para ser bem específico: o Ministério da Coordenação Política e Articulação de Governo, cargo nas mãos de Aldo Rebelo que, na penúltima noite da reforma ministerial, dormiu com o PT e acordou onde estava, com o PCdoB.
Acuada, a esquerda esconde ministros
Encerra também a expectativa da reforma ministerial arquivada, tida como imprescindível para recompor a sustentação política no Congresso e permitir ao governo sair da defensiva em que se encontra desde a eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara. Sob pressão, na reforma arquivada, Lula não conseguia decidir. Era o problema. Agora, o PT fez o toma lá. Espera o dá cá. A bola está com o presidente. Mesmo tendo o presidente Lula assumido pessoalmente as conversas, a coordenação não melhorou. A percepção de "descoordenação" não desapareceu no Congresso. Muito menos no PT, no "campo" e na esquerda. Há dez medidas provisórias trancando a pauta da Câmara, além de outras seis no Senado. A pauta de Severino Cavalcanti é uma tocaia à política de equilíbrio fiscal. Noves fora o Congresso, há outras demonstrações de falta de coordenação. O programa partidário de TV do PSB, um aliado tradicional de Lula, por exemplo, foi pródigo em falar na reforma urbana; do governo, nada. Mais grave: deixou passar batida a convenção do PP que declarou a independência do partido em relação a Lula, quando o Planalto disporia de meios para compor a maioria dos dirigentes do partido. O "fogo amigo" continua fora de controle, como demonstram ataques recorrentes do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) à nomeação de Romero Jucá (PMDB) para o Ministério da Previdência e Assistência Social. O risco, portanto, está nas bases nas quais se assenta o entendimento do "campo majoritário" Além da não-reforma ministerial, o acordo sobre a prioridade das alianças nos Estados é consensual até que cada potencial candidato trate da situação de seu próprio Estado. A esquerda, por seu turno, tentará se prevalecer dessas contradições para crescer, mas suas possibilidades tendem diminuir à medida que o "campo" consolidar a unidade. Atualmente com três candidatos para o lugar de Genoino, tenta fechar em torno de um único nome. Acuada, nem sequer tem conseguido arrastar para seus encontros - como o "campo" fez com Dirceu e Palocci - os ministros que integram suas tendências, como Olívio Dutra (Cidades), Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário) e José Fritsch (Pesca). Segundo se diz, para "preservá-los". A primeira fatura O PMDB cobrou a solidariedade do governo na defesa do "companheiro" Romero Jucá, emparedado por um negócio mal explicado com o Banco da Amazônia (Basa). Alega que essa responsabilidade deve ser dividida, no mínimo, entre o partido, que o indicou, e o Planalto, que o nomeou. Os caciques pemedebistas argumentam que o desgaste político decorrente da fritura de Jucá não será só do PMDB, mas de todos, inclusive do PT e do presidente Lula. Afinal, como fazem questão de registrar os dirigentes da sigla, o presidente conhecia as denúncias contra Jucá, leu e aceitou suas explicações antes de nomeá-lo ministro. O Planalto, que precisa do PMDB para fazer maioria no Senado e tem um flanco aberto com Henrique Meirelles no Banco Central, parece ter entendido o recado: no fim de semana o ministro José Dirceu (Casa Civil) afirmou que Jucá "tem a confiança" de Lula.