Título: Situação de Seixas Corrêa fica difícil na disputa da OMC
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 13/04/2005, Brasil, p. A3
A primeira rodada de consultas para a escolha do próximo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) será encerrada hoje, em meio a expectativa de potencial impasse sobre o primeiro candidato a ser eliminado. A situação que se detectava ontem em Genebra apontava o candidato brasileiro Luiz Felipe Seixas Corrêa em último lugar como "primeira escolha" dos países, mas ele liderava a lista da "segunda preferência". Entre os que o colocam na "coluna um" estariam grandes países em desenvolvimento como China, Índia, África do Sul e Tailândia, com peso na construção de consenso. A seleção estaria sendo liderada pelo africano Jaya Krishna Cuttaree na "primeira opção" (a chamada coluna um) graças a votos dos países ACP (África, Caribe e Pacífico, que têm 57 membros na OMC). Mas ficaria em último como a segunda preferência dos países, o que inviabiliza sua vitória mais tarde. O candidato europeu, Pascal Lamy, é dado em segundo lugar, quase colado a Cuttaree e com possibilidade de superá-lo na primeira opção. Lamy seria segundo também como "segunda preferência" dos membros. O candidato uruguaio, Carlos Perez del Castillo, seria terceiro em ambos os casos. "Se você perguntar, vai ouvir de 80% das pessoas que circulam pela OMC que Seixas Corrêa é o mais ameaçado, mas a maioria dessa gente está com Pascal Lamy (o candidato europeu)", dizia ontem uma importante fonte em Genebra. "Nada está definido e pode se esperar eventual questionamento da metodologia de seleção por parte de qualquer que seja o primeiro candidato derrotado." Por sua vez, o candidato brasileiro manifestou inteira confiança. "Sinto-me confortável com minha base de apoio e acho que ela deve me levar até a final", afirmou Seixas Corrêa, na pausa de articulações, mesmo em recuperação de uma operação de catarata. A questão agora é como será feito o cruzamento dessas duas linhas de preferências e apontar o primeiro candidato a ser eliminado, porque a metodologia não está clara para ninguém e pode levar ao bloqueio. O Brasil tem defendido que a segunda escolha deve ser considerada com especial atenção, porque pode refletir menos rejeição do que um candidato com mais indicações na primeira preferência. O país foi o primeiro a advertir que o processo de construção de consenso é incompatível com uma votação majoritária, que não está prevista no mandato da escolha. Uma declaração do ministro Celso Amorim, julgando o processo de escolha "não transparente", causou celeuma em Genebra e alimenta especulações de que o Brasil junto com China e Índia podem "virar a mesa" se tentarem eliminar seu candidato desde a primeira rodada. Parece claro que qualquer que seja o candidato mais fraco, vai querer ver os números, os nomes dos países e questionar a metodologia de seleção. Isso porque a presidente do Conselho Geral da OMC, a embaixadora do Quênia Amina Chawahir Mohamed, que preside o processo de seleção, não explicou claramente o critério para medir o grau de apoio de cada candidato. No altamente secreto "confessionário", onde recebe individualmente cada delegação, ela faz uma pergunta: "Quais são suas preferências?" Mas nunca definiu como essa questão será interpretada, a não ser indicar que os países podiam indicar uma ou várias preferências. Assim, um processo que já começou sob suspeita caminha para o impasse por várias razões: como uma africana vai degolar o candidato africano que chegou em primeiro lugar, mesmo se até o porteiro da OMC sabe que ele não obterá consenso? Mas também como eliminar o candidato brasileiro, sustentado por gigantes no comércio mundial, e preferido em segunda opção? Sobre o candidato europeu, nem se fala: Lamy continua no jogo. Certos negociadores sugerem que o menos complicado politicamente seria a eliminação de Castillo. Mas como justificar metodologicamente sua exclusão para manter Seixas com menos votos como primeira opção? O que vai prevalecer, ninguém sabe. Uma primeira eliminação não sai antes da semana que vem, oficialmente, pelo menos. Mas se o impasse se confirmar, importantes negociadores pensam que só há um jeito: Amina deverá ir ao Conselho Geral, que reúne os chefes de delegações dos 148 países membros e pedir a definição de novas regras para o processo de seleção.