Título: Dólar e risco-Brasil despencam
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 05/10/2004, Finanças, p. C-1

Petróleo, eleições municipais e expectativa de nova emissão animam investidores

A queda no preço do petróleo - que trouxe otimismo para os mercados do mundo todo - e a vitória do PT nas eleições municipais de domingo deixaram os investidores animados, fazendo aumentar as apostas em uma captação externa iminente do Tesouro Nacional. O resultado foi um tombo forte no risco-Brasil medido pelo índice EMBI+, do JP Morgan, de mais de 4%, e uma nova queda no dólar. O risco-Brasil, que chegou ao pico deste ano de 805 pontos básicos em 10 de maio, caiu para 441 pontos básicos às 19h de ontem, com redução de nada menos do que 4,34% em um só dia. O C-Bond, o título da dívida externa brasileira mais negociado, superou o preço de 100% do valor de face, para chegar a 99,83% no fechamento do mercado.

O dólar foi a R$ 2,8260, uma queda de 0,42% no dia e de 2,62% acumulada no ano. Desde o final de maio, o real teve valorização real (contabilizada a inflação) de 16%, segundo o economista-chefe do ABN-AMRO, Mário Mesquita. Os analistas não vêem limites para a queda do dólar no curto prazo e consideram que o mercado vai testar o Banco Central, embora alguns digam que o real já está valorizado demais. O mercado foi unânime em considerar o PT o vencedor do primeiro turno das eleições municipais, apesar da votação maior do que a esperada de Serra em São Paulo e das incertezas em Porto Alegre. "O resultado das eleições foi ideal do ponto de vista do mercado", considera Mesquita. A votação no PT foi suficientemente forte para enfraquecer a ala esquerda do partido e as pressões por mudanças na política econômica, afirmou. "Mas, por outro lado, o PT não foi tão hegemônico assim, o que faz com que ele resista à tentação de ter uma política econômica um pouco menos centrada no mercado", disse. Por isso, considera, as eleições favoreceram a implementação da agenda de reformas defendida pelo mercado, afirmou. Alessandra Ribeiro, da consultoria Tendências, concorda. "Com o PT indo bem nas urnas, diminui tremendamente a angústia dentro do partido, com relação ao temor de que a agenda de reformas do governo Lula poderia corroer suas bases tradicionais de apoio nas grandes cidades", afirmou. As atenções agora vão se voltar, principalmente, para São Paulo e Porto Alegre. "Apesar da diferença maior do que a esperada para Serra, a eleição ainda não está definida em São Paulo", considera Alexandre Cancherini, analista do Unibanco. Em Porto Alegre, uma ala mais à esquerda do PT culpa a política econômica do governo pelo desempenho pior do que o esperado do partido na cidade, segundo Mesquita. "Se o PT realmente perder essa tradicional prefeitura, essa ala mais à esquerda pode fazer barulho", considera. Ele diz que o PMDB e o PFL mostraram enfraquecimento, mas diz que o país está longe do bipartidarismo. Nos próximos dias, o mercado também vai prestar atenção no ritmo de aprovação das reformas. "Eu não me esqueci que o governo prometeu aprovar a Lei de Falências entre o primeiro e o segundo turno das eleições municipais", diz Ricardo Junqueira, sócio-gestor da Ático Asset Management. O preço do petróleo será outro importante foco de atenção. "O petróleo funciona como uma espécie de imposto. Quando seus preços sobem, o mundo cresce menos", comentou Junqueira. A queda nos preços do petróleo animou as Bolsas no mundo todo, inclusive no Brasil, impactando também os mercados de títulos da dívida externa, câmbio e juros. Com o preço do petróleo subindo menos, as expectativas de inflação do mercado apuradas pelo boletim "Focus" do BC e divulgadas ontem caíram, de 6,23% ao ano nos próximos 12 meses para 6,18%. Uma menor expectativa de inflação muitas vezes resulta em menor inflação, pois os agentes econômicos não fazem repasses preventivos. "O saldo da balança comercial continua a surpreender", disse Junqueira. Ontem, foi divulgado o acumulado de US$ 25 bilhão no ano.