Título: Juros só devem cair no segundo semestre, diz conselheiro da Acrefi
Autor: Maria Christina Carvalho
Fonte: Valor Econômico, 18/04/2005, Finanças, p. C2

O conselheiro econômico da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) e professor da Fundação Getúlio Vargas, Istvan Kasznar, acredita que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai manter ou elevar novamente a taxa básica de juros (Selic) na reunião deste semana. A Selic vem subindo desde setembro e está em 19,25% ao ano. Kasznar fundamenta sua avaliação no " tímido repique inflacionário" e na pressão sobre os preços causada pela carga tributária, preço do petróleo e o impacto da própria elevação dos juros. O governo Lula está claramente comprometido com o combate à inflação no curto e longo prazo, disse. Para o economista, a perspectiva de nova elevação do juro assusta. "Ninguém gosta do cheiro nem do gosto do juro alto porque ele contamina toda a economia. As empresas produzem menos. As pessoas consomem menos e a oferta agregada cai. Não é por acaso que as exportações batem recordes sucessivos". Há ainda o impacto extremamente negativo na dívida pública. "Pagar R$ 170 bilhões em juros é um fardo grande". Por outro lado, o juro menor gera um "efeito de bem estar" porque as pessoas consomem mais e as vendas aumentam, e há uma expansão das atividades. Para a política de crédito, é bom a liberação de dinheiro a taxas atraentes e suficientemente baixas para estimular o investimento. Se a taxa é muito elevada, fica caro investir. O juro alto estrangula a produção e os preços acabam subindo; só atrai o capital especulativo. Para combater a inflação usando o juro, afirmou Kasznar, "é preciso dosar o nível da taxa e, sobretudo, o tempo máximo de duração da política restritiva". A grande saída, disse, não está na política monetária mas sim na política fiscal, que pode abrir espaço para uma saída negociada e e "refrigerar" o sistema. Segundo o conselheiro da Acrefi, os banqueiros também não gostam de juros altos. "Isso mata a galinha dos ovos de ouro. Os banqueiros querem margem. Mas, se puxarem muito a corda, a inadimplência estoura". Todos comemoraram o crescimento do crédito em 2004. Mas Kasznar lembra que o aumento dos estoques ocorreu em relação ao fundo do poço depois de 20 anos de estagnação. "Ainda é pouco", afirmou. Observou também que as carteiras foram impulsionadas por linhas estimuladas pelo governo Lula, como o crédito com desconto em folha. As financeiras cabem como uma luva nessa política, disse, porque podem gerar crédito para pequenas e médias empresas e pessoas físicas, afirmou. No últimos 20 anos a 30 anos, as financeiras eram apenas cabides dos bancos. Para ele, o BC só deverá reduzir o juro real no segundo semestre. "Mas, é preciso de disciplina fiscal para que isso aconteça", acrescentou, abrindo espaço para a expansão sustentada do crédito.