Título: Aliados cobram governo por derrota
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 06/10/2004, Política, p. A8
PCdoB, que lançou quatro cabeças-de-chapa nas capitais, é o aliado mais insatisfeito com o PT
O governo avalia que saiu fortalecido do primeiro turno das eleições municipais, mas reconhece que os eleitores mandaram um recado a Brasília: o PT ganhou as eleições, mas não tudo. Isso ficou evidenciado com o bom desempenho em São Paulo do PSDB, principal partido de oposição ao governo. No maior Estado do país, os tucanos elegeram mais prefeitos e tiveram mais votos que o PT - a diferença chegou a 1,4 milhão de eleitores. A avaliação foi feita ontem durante a reunião de coordenação política do governo, no Palácio do Planalto. Apesar do clima de comemoração, pelo menos três assuntos "desagradáveis", segundo linguagem usada por um dos presentes, foram tratados no encontro: a dificuldade para eleger a prefeita Marta Suplicy no segundo turno em São Paulo; as queixas dos partidos da base aliada prejudicados pelo PT na eleição; e a renúncia do candidato do PMDB, Moreira Franco, à Prefeitura de Niterói (RJ). Antes do primeiro turno na capital paulista, O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus assessores já duvidavam do sucesso de Marta. Com o resultado do primeiro pleito mostrando uma diferença de quase 500 mil votos entre o candidato do PSDB, José Serra, e a prefeita petista, o pessimismo aumentou. "São Paulo está difícil", admitiu um assessor. Um dos assuntos mais delicados da reunião de ontem foi a derrota de alguns candidatos aliados do governo. O caso mais falado foi o do deputado Inácio Arruda (PCdoB), que perdeu a vaga no segundo turno da disputa em Fortaleza para a petista Luizianne Lins. Filiado ao PCdoB, o ministro da Articulação Política, Aldo Rebelo, queixou-se do comportamento do PT e do governo. Mesmo com a decisão do presidente Lula e do ministro da Casa Civil, José Dirceu, de apoiar o candidato comunista, cinco ministros e o presidente da Câmara, o petista João Paulo Cunha, foram a Fortaleza para ajudar Luizianne, que calcou sua campanha em ataques ao governo e a decisões impopulares do Palácio do Planalto, como a taxação dos inativos e o reajuste do salário mínimo. Lula disse a Aldo que defendeu uma intervenção no PT do Ceará e também em São José do Rio Preto (SP). Ontem, o presidente lamentou que isso não tenha ocorrido. "A base de apoio ao governo não quer mais receber tratamento de segunda classe", disse um assessor que acompanhou parte da reunião de coordenação. O presidente do PCdoB, Renato Rabelo, responsabilizou o PT pela derrota de Inácio. "Essa história de que o PT e o governo Lula nos apoiaram em Fortaleza está mal contada. Tivemos que enfrentar o PT. Os petistas não só mantiveram a candidatura da Luizianne Lins como cinco ministros e o presidente da Câmara foram lá fazer campanha para ela. Alguns petistas nos apoiaram, mas o PT foi um obstáculo", criticou Rabelo, segundo a Agência O Globo. A reunião de coordenação, que durou duas horas e meia, transcorria em clima de descontração quando surgiu a informação da renúncia de Moreira Franco. O deputado terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 22,48% dos votos, atrás do candidato do PT, Godofredo Pinto, que recebeu em 47,97% dos votos válidos. Por causa da renúncia, o Tribunal Regional Eleitoral decidiu que o segundo turno será decidio por Godofredo e o candidato do PDT, João Sampaio, que ficou com apenas 14,42% dos votos no primeiro turno. O Palácio do Planalto considerou negativa a notícia porque Sampaio é ligado ao ex-governador Anthony Garotinho, adversário e desafeto do presidente Lula. "Isso não é bom", disse um assessor do presidente. O governo vem se movimentando para enfraquecer Garotinho, candidato declarado à sucessão de Lula em 2006. Para tanto, abriu diálogo com o prefeito reeleito do Rio, Cesar Maia, do PFL. Lula e os ministros Aldo Rebelo e José Dirceu, estão tentando, inclusive, convencer o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, a mudar de partido e domicílio eleitoral para tentar eleger-se governador do Rio de Janeiro em 2006.