Título: Natal organiza o combate ao turismo sexual
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 25/04/2005, EMPRESA & COMUNIDADE, p. F4

Visitante que desembarca em Natal (RN) recebe imediatamente a informação de que turismo sexual é crime. Natal é a primeira cidade a entrar no roteiro da tolerância zero à exploração sexual, que recomenda a estabelecimentos ligados ao turismo distribuir folhetos, afixar placas e oferecer telefones para denunciar. Essa experiência piloto em Natal conta com a colaboração de 97 empresas do setor, 171 taxistas, bares, restaurantes, casas noturnas, além de parcerias com o World Childhood Foundation (WCF) e a Resposta, organização social encarregada da elaboração e distribuição do Código de Conduta do Turismo Contra a Exploração Sexual Infanto-Juvenil. A ação de Natal tem como objetivo o turismo sustentável. "Não há destino, por mais deslumbrante que seja, que prospere com turismo sexual", afirma Ana Paula Felizardo, presidente da Resposta. "Esse turismo é predatório, desqualifica o turista, arrasa a comunidade e mingua os postos de trabalho". Já faz três anos que a Reposta repete exaustivamente estes argumentos em Natal, numa constante recomendação ao empresariado para que não tolere exploração sexual. A ação é reforçada por um comitê de monitoramento que visita empresas e confere as condições antes de liberar o selo que assegura que, naquele estabelecimento, o Código de Conduta é levado a sério. A partir da experiência de Natal a Atlantica Hotels International começa ainda este mês a multiplicar ações contra o turismo sexual - um programa que deve atingir os 50 hotéis da rede no país inteiro até o final do ano. A primeira etapa envolve o treinamento dos cerca de 1.800 funcionários. "Não queremos mais crianças e jovens entrando em hotéis na companhia de turistas", decreta Dináurea Cheffins, vice-presidente de RH da Atlantica Hotels. "O treinamento será contínuo para que os funcionários identifiquem automaticamente essas situações e saibam como agir". O treinamento envolve recepcionistas, gerentes, governanças, garçons, mensageiros - e é extensivo a agentes de turismo, shoppings e toda a cadeia de comércio e entretenimento. Paralelamente, as comunidades nativas dos destinos turísticos também passarão por um amplo programa de conscientização e capacitação - um trabalho a cargo do WCF. A divulgação da causa nos hotéis servirá como ponto de partida a uma campanha de arrecadação de fundos, para que o WCF ofereça à comunidade programas de geração de renda e capacitação para o trabalho no setor hoteleiro. Cada etapa será comandada por um parceiro, numa imensa ação multidisciplinar nas diferentes localidades turísticas. "É um esforço que deve apresentar os primeiros resultados dentro de dois anos", calcula Ana Maria Drummond, diretora executiva do WCF. A experiência de Natal por onde circulam cerca de quatro mil turistas por dia, e a multiplicação das ações por meio do trabalho da rede Atlantica pode render muito mais adeptos, segundo prevêem Ana Maria, Dináurea e Ana Paula. "Quando as cadeias de hotéis constatarem que essa mudança de atitude pode fazer toda diferença na lucratividade do negócio, será difícil alguma rede ficar fora da causa", imagina Dináurea. "O turismo no Brasil ainda não atingiu nem a metade de seu potencial. Vamos ter um grande impulso quando o turismo sexual for enfrentado e atacado de frente". (S.T.)