Título: Fabricante de chips aponta falta de condições para investimento no país
Autor: Ricardo Balthazar
Fonte: Valor Econômico, 27/04/2005, Brasil, p. A5

Fabricantes de componentes eletrônicos sofisticados que são importados pelo Brasil expuseram com clareza ontem as razões pelas quais o governo encontra tanta dificuldade para atrair essas indústrias para o país. Na avaliação dessas empresas, o Brasil ainda não reúne muitas condições que poderiam justificar investimentos de porte nessa área. "Precisamos ir passo a passo, porque os investimentos necessários nessa indústria são muito elevados", disse o vice-presidente da STMicrolectronics, François Guibert, em seminário da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). A empresa possui fábricas na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos e faturou US$ 8,7 bilhões em 2004. Guibert assumiu há poucos meses o comando das operações da STM em países em desenvolvimento e veio ao Brasil nesta semana para um primeiro contato com autoridades e empresários locais. Ele disse que vê "potencial" na América Latina, mas indicou que a empresa não está disposta a investir no país agora. A STM vêm sendo cortejada há meses pelo governo, que definiu a atração de fabricantes de chips, semicondutores e outros componentes como uma das prioridades da sua política industrial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se com executivos da empresa há um ano, na Suíça, e dois ministros visitaram as instalações do grupo na França. Em meados do ano passado, a empresa sugeriu a funcionários do governo brasileiro que teria interesse em montar um centro de pesquisas e desenho de componentes no Brasil, mas a idéia parece ter sido abandonada. A direção do grupo foi trocada e ninguém mais falou no assunto. Segundo Guibert, a STM só teria interesse em investir no Brasil se houvesse no país um maior número de fabricantes de aparelhos eletrônicos que usassem seus componentes e profissionais qualificados para projetá-los. "Além disso, teríamos que observar a evolução do mercado antes de investir", disse Guibert. Desde que o governo elegeu o setor como prioritário, apenas uma empresa anunciou investimentos no país, a fabricante de memórias Smart Modular Technologies. Sediado nos Estados Unidos, o grupo tem fábricas na Ásia e na América Central e está no Brasil desde 2002, quando adquiriu uma antiga fábrica da japonesa NEC em Guarulhos (SP). Ela hoje importa componentes e monta as memórias em Guarulhos. Seu plano é ampliar suas instalações para realizar no país etapas mais sofisticadas da montagem das memórias. Executivos da Smart anunciaram o projeto em agosto e prometeram detalhes para este mês, mas ainda há vários pontos indefinidos. O presidente da empresa no Brasil, Noboru Takahashi, disse ontem que ainda está discutindo seus planos com a matriz e espera receber o sinal verde "até o fim do ano". A fábrica deve ser instalada no Estado de São Paulo, mas a cidade ainda não foi escolhida. "Ainda estamos discutindo incentivos fiscais com vários governos locais", explicou o executivo. A empresa planeja investir pelo menos US$ 15 milhões em máquinas numa primeira etapa. Os equipamentos que ela deseja comprar não têm similar nacional mas entram numa categoria em que o governo cobra até 18% de imposto sobre as importações. A empresa pediu ao governo que essa alíquota seja zerada. Na avaliação do governo, é preciso ser paciente. "Não adianta criar falsas expectativas", disse o gerente-geral da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Edmundo Machado de Oliveira. "Esse mercado é selvagem e os investimentos só virão quando os empresários do setor botarem a mão no bolso."