Título: Piora a crise financeira das empresas aéreas
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 11/10/2004, Opinião, p. A-6

A crise financeira da Vasp parece seguir o mesmo rumo que tirou a Transbrasil do ar. Ao acumular prejuízos e pesadas dívidas de curto prazo, a companhia enfrenta agora o cerco dos credores privados e estatais, como a Infraero, pedidos de falência, processos no Ministério do Trabalho, o encolhimento da frota e insatisfações trabalhistas que culminaram em uma greve recente. A maior empresa do Brasil, a Varig, tem patrimônio negativo de mais de R$ 6 bilhões. O fato de, das três companhias mais tradicionais do país, uma ter parado de operar e duas viverem um inferno financeiro indica que o setor precisa de uma reestruturação séria, que não pode demorar. A mudança no ambiente competitivo na aviação civil brasileira contribuiu para tornar mais grave a crônica carência administrativa das tradicionais empresas aéreas. Durante muitos anos elas foram defendidas pela regulação do Estado, que as protegeu da competição, e operaram com várias rotas exclusivas, com tarifas altas, um ambiente pouco saudável para a redução dos custos, o aumento da eficiência e boas práticas administrativas. A desregulamentação mundial do setor abriu parcialmente o espaço aéreo brasileiro e a trajetória relativamente bem-sucedida da TAM e, agora, da Gol, roubou fatias de mercado preciosas das companhias mais antigas, derrubou tarifas e tornou agudas as deficiências com as quais as veteranas no setor conseguiam, mal ou bem, conviver. O governo renovou até abril a concessão da Varig, e depois a da Vasp, para que até lá elas tenham a chance de apresentar uma solução para seu endividamento e uma estratégia de sobrevivência crível. É pouco provável que elas consigam fazê-lo e, nesse período, o governo deverá colocar em ação uma reestruturação geral do setor, cujas linhas ainda são desconhecidas. Várias idéias estão sendo descartadas e até agora sabe-se apenas o que a União não quer. Um dos princípios, que deve ser a regra de ouro, é o de que vai se buscar uma solução de mercado. Parece até certo ponto inevitável que o BNDES entre para sustentar um novo desenho do setor. Não há inconvenientes nisso, desde que sua ação evite favorecimentos ou subsídios implícitos. Até mesmo a entrada do governo como sócio minoritário não conflita com saídas de mercado, como prova a experiência de países desenvolvidos. Não será fácil encontrar maneiras de estancar a bola de neve do endividamento, alimentada por prejuízos e geração de caixa insuficiente. A Vasp tinha, em dezembro, uma dívida total de R$ 2,67 bilhões, com R$ 550 milhões a curto prazo. O maior naco dos compromissos financeiros da empresa está com o governo - R$ 825 milhões ao INSS e R$ 770 milhões à Infraero. O passivo trabalhista vem crescendo à medida que se avolumam os processos, da mesma forma que a dívida privada. Responsáveis pelos serviços de manutenção, a GE Celma e GE Varig pediram a falência da Vasp e cobram várias dívidas, entre elas as de manutenção de aeronaves, que deixou de ser feita em alguns aviões. O Departamento de Aviação Civil determinou a retirada de seis aparelhos das rotas aéreas por esse motivo. Com as turbulências se acumulando, a empresa vem perdendo participação de mercado no ano - em setembro, foi de 8,6% - o que reduz ainda mais sua capacidade de reação. Na péssima situação em que se encontram as empresas tradicionais do setor, dificilmente será possível encontrar uma saída que as coloquem na rota do lucro sem que as atuais direções das companhias sejam alijadas do comando ou tenham seu poder de decisão decisivamente reduzido. No caso da Varig, a fundação que a controla pareceu contar sempre com uma suposta disposição do governo de vir em seu socorro para impedir todos os planos de reestruturação, que já foram tentados por seis presidentes em um par de anos. A última tentativa - a fusão com a TAM - foi bombardeada pelos controladores e não prosperou. Wagner Canhedo, presidente da Vasp, disse que tem um plano para resgatar a saúde da empresa e que ele inclui a compra de novos aviões. Encolhendo nas rotas e no número de passageiros, e com cobranças de dívidas vindas de todos os lados, é pouco provável que a intenção de Canhedo seja concretizada. A constante acomodação dos problemas por parte dos sucessivos governos só tornou o rombo das empresas maior. O tamanho dos passivos é um obstáculo quase insuperável para que as companhias com finanças equilibradas, como TAM e Gol, sejam agora seduzidas a uma possível fusão. A redução do número de empresas no setor, assim, parece irreversível.